ECO DE PLÁSTICO

por ANA AMÉLIA GUIMARÃES
Professora

Agradeço à equipa do Mais Guimarães o convite que me endereçou e às leitoras e leitores deste jornal a paciência e a gentileza de me lerem.

Um novo jornal, nos tempos que correm, é motivo de surpresa, pois tamanha audácia começa a ser incomum na era digital. Por isso, um jornal em papel é um fenómeno editorial a celebrar, (até o New York Times assumiu a sua “perda da vantagem competitiva” em relação aos jornais digitais).

Este novo periódico vem também saldar uma “dívida” para com Guimarães que, até há pouco, tinha sido servida por quatro semanários. Dos quatro apenas restou um, resistente, e os outros nem sequer foram substituídos por versões digitais. Fim.

Será que continua a fazer sentido um jornal, e em papel? Claro que sim, pelo prazer de “pegar” nas notícias, mas também porque vai de encontro ao democrático e precioso  hábito de ler jornais que ainda mora no nosso concelho, basta passar nos cafés e ver “o jornal da casa” (como me agrada esta expressão) sempre ocupado.

Aproveito também este primeiro artigo para me congratular com a busca da opinião plural por parte do Mais Guimarães, por contraste com a comunicação social dominante/nacional. O espetáculo dado pelos “comentadores”, durante e após a última campanha eleitoral, foi, no mínimo, deprimente no que à diversidade e possibilidade de contraditório diz respeito e que mutila a democracia.

Por isso, sendo este um convite pessoal, por certo não foi alheia a possibilidade de ver representada nas páginas deste semanário um posicionamento situado à esquerda, uma certa esquerda apelidada pelos “fabricadores de consensos” de radical. Não pretendo, no entanto, arcar com essa responsabilidade, porque não seria legítimo e porque, seguramente, irei escrever no decurso das próximas edições sobre assuntos que podem sair da discussão política tout court para assuntos não tão marcadamente da agenda político-paridária.

Não é o caso do assunto com que termino.

Nas últimas semanas soubemos da pretensão da Câmara alargar a zona de classificação da Unesco, uma pretensão que é consequência da vontade unânime do elenco municipal. Soma-se a esta pretensão a de capital verde. No entretanto, cai nesta “narrativa” cor-de-rosa uma nódoa chamada Ecoibéria. É difícil aguentar a reportagem da RTP sem sentir constrangimento.

O caso Ecoibéria conta-se em duas linhas: num local da cidade – Pencelo – a autarquia proibiu a construção de habitações com o argumento do impacto visual e ambiental. Seis meses antes desse local ser considerado reserva ecológica foi autorizada a construção de uma fábrica de reciclagem de plásticos. Um pesadelo que saía de Famalicão e que a autarquia de Guimarães, desdizendo o que afirmou defender,  ou seja,  o património natural e a qualidade de vida dos seus cidadãos, recebe como se lhe tivesse saído um brinde, a fava de plástico.

O caso Ecoibéria não é um pormenor num todo. É um caso grave de ligeireza na gestão da cidade e do concelho e que revela pela enésima vez que fora do centro histórico o planeamento cuidado, atento e rigoroso não existe. Mostra ainda que o cuidado com o património se esgota no período medievo (veja-se a destruição do mercado municipal, obra do arquiteto Marques da Silva, ou do jardim da Alameda de S. Dâmaso, por exemplo) e que a consciência verde da autarquia só despertou seis meses depois do licenciamento da coisa. Guimarães precisa de mais e merece melhor.

Nota: A quem passou ao lado da reportagem na RTP1, programa “Sexta às 9”, de 25 de Setembro de 2015, aqui vai a ligação: http://www.rtp.pt/play/p1758/e207926/sexta-as-9

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