Em Portugal, já se faz “medicina de catástrofe”

A “complexidade” da situação que vivemos foi um dos temas em destaque no Consultório Aberto deste sábado, que contou com a presença Miguel Guimarães, Bastonário da Ordem dos Médicos, além de Emanuela Lopes, psicóloga clínica e da saúde do Hospital de Guimarães.

Miguel Guimarães referiu a situação que vivemos como “demasiado complexa”. Perante isto, vários são os desafios que surgem. O primeiro desafio “tem a ver com a vida das pessoas”, referiu recordando Itália, que chegou a ter uma taxa de mortalidade “perto de 7,5%” quando o vírus chegou à Europa. “Este vírus tem uma infeciosidade muito elevada, e como tem uma infeciosidade muito elevada, acaba por infetar muita gente”, alertou.

“Uma parte significativa da população que tem a infeção está assintomática, ou tem sintomas muito ligeiros, que nem sequer valoriza, muitas pessoas nem sequer farão teste e continuam a fazer a sua vida habitual”. Por este motivo, o confinamento “funciona”, explica. “Quanto maior for a percentagem de infetados, maior é a percentagem de internamentos, de doentes graves que precisam de ser internados para ser tratados, e também de doentes que necessitam de cuidados mais diferenciados, nomeadamente cuidados intensivos”.

O desafio do combate à doença covid, de “tentar evitar que muitas pessoas morram”, não é o único. “Continuar a tratar os doentes não covid que estão a ficar para trás”, junta-se aos problemas. “No ano passado nós tínhamos mais de 25 milhões de consultas presenciais, operações, e também exames complementares de diagnóstico e terapêutica que ficaram por fazer”. O Bastonário conta ao Mais Guimarães que, “neste momento, este número já ascenderá mais de 30 milhões”. O desafio da economia não fica esquecido. “Temos muitas empresas a entrar em falência, porque o confinamento obriga a isso”.

A comunicação do Governo “falhou” e “continua trémula”

“A decisão política ou tem por suporte a ciência, ou então a decisão política acaba por falhar”, explicou Miguel Guimarães, sublinhando que, “no início da pandemia, fomos considerados um milagre” devido ao primeiro confinamento.

O Natal foi um episódio importante para o Bastonário da Ordem dos Médicos. “Todos nós temos conhecimento de ceias de Natal com 60, 70, 80 pessoas. Não tendo nenhuma indicação formal, por parte do primeiro-ministro nesta matéria, é evidente que as pessoas se sentiram à vontade para o fazer.”

Em outubro, Miguel Guimarães acreditava que a comunicação “de que a situação era grave, de que a nossa capacidade de resposta estava muito diminuída”, devia ter sido passada.

Numa altura em que, em Portugal, se faz o que se chama “medicina de catástrofe”, “ainda existem alguns resquícios de que a comunicação continua a ser trémula”. Miguel Guimarães explicou ainda que “os dados que nós temos neste momento vão ter repercussões daqui a sete, dez dias, quinze dias, consoante estivermos a falar de internamentos, cuidados intensivos, e mortalidade.”

“As escolas estiveram fechadas na Segunda Guerra Mundial durante vários vários meses, ultrapassou seguramente um ano. E aquelas crianças, que obviamente ficaram prejudicadas, foram os adultos que construíram a Europa que nós conhecemos.”

Miguel Guimarães

A decisão não parece ser difícil para o médico. “Temos de escolher entre salvar vidas, ou manter as escolas abertas”, referiu, dizendo que as atividades letivas foram suspensas, porque “o Governo não preparou suficientemente bem as escolas para que pudesse haver ensino à distância”.

“As pessoas são prejudicadas, mas podem recuperar. Este mês é recuperável, é importante que as pessoas tenham esta noção”, sublinhou. “O que é importante é que estas crianças possam estar com os seus pais, possam ter acompanhamento em casa e, idealmente, pudessem ter também ensino a distância, ou pelo menos atividades à distância, em que partilhassem as suas ideias, os seus pensamentos, as suas brincadeiras, com outras crianças”.

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