ENTREVISTA: EMÍLIA LEMOS, PROFESSORA DO ENSINO PRIMÁRIO

O dia 01 de setembro é um dos seus favoritos. “É uma nova vida.” A escola é casa. Olha para os alunos como se fossem seus filhos. Não há criança que saia da sua sala de aula sem perceber a matéria — e as novas tecnologias dão uma (grande) ajuda. Emília lemos é professora “há cerca de 20 anos” e os antigos alunos reconhecem-na na rua. “Fica um carinho pelo professor do primeiro ciclo.” A professora Mi, como lhe chamam os alunos, faz por isso.

@João Bastos/ Mais Guimarães

Há quantos anos se dedica a ensinar os mais novos?

Sou professora há cerca de 20 anos. Comecei a carreira mais tarde, a nível de ensino. Foi a minha primeira e, até à data, única profissão. Tive uns projetos nada significativos antes. Digo que comecei mais tarde porque tomei a opção de formar família primeiro e, depois, decidi concluir o ensino secundário. Como tinha esta paixão pelo ensino, resolvi tirar a licenciatura na área.

E foi sempre esta a profissão que quis exercer? Ou o destino trocou-lhe as voltas?

Tinha outros projetos de vida, sim. A minha profissão de sonho, antes, era na área da medicina. Só que, lá está, a vida dá as suas voltas. Houve dificuldades de ingresso na altura e o facto de ter formado família levou-me a optar pela área do ensino, de que sempre gostei muito. Talvez tenha canalizado esse meu sonho para as minhas filhas, que seguiram essas pisadas. Mas abraço, como todo o meu ser, a profissão que escolhi e que desempenho.

Como foi o seu caminho até aos dias de hoje? Sei que está, neste momento, a tirar um mestrado relacionado com a profissão.

Quando iniciei carreira, e como acontece com qualquer professor nesse período, fui colocada noutra cidade, em Leiria. Mas a minha carreira tem sido, quase na totalidade, em Guimarães, já que regressei e estive sempre a trabalhar nesta zona [do agrupamento de Escolas João de Meira]. Entretanto, tirei uma especialização em Necessidades Educativas Especiais e trabalhei muitos anos nessa área. Trabalhei cerca de dez anos na Escola João de Meira sempre no domínio das necessidades educativas especiais. Talvez por imperativos que não meus, mas da DGES. Deixe-me explicar: a minha formação é em Educação Física e estou vinculada ao primeiro ciclo, que foi a oportunidade que surgiu na altura. Com essa especialização, fui destacada para a área das necessidades de ensino especial. Houve uma altura em que esse destacamento não foi autorizado e então acabei por vir para esta escola [a E.B 1 Oliveira do Castelo], onde estou há cinco anos como titular de uma turma. Fui ficando por aqui e gostei. Agora estou a fazer mestrado em Administração Escolar, sim. Como professora, tenho de estar sempre a atualizar os meus conhecimentos.

@Diogo Bastos/ Mais Guimarães

Portanto, toda o seu percurso académico vai ao encontro do ensino. Mas, como referiu, a sua formação de base é em Educação Física, para além da especialização em Necessidades Educativas Especiais. Tornar-se professora também significa um cruzamento entre o sonho antigo da medicina, de cuidar dos outros e do seu bem-estar?

Sim, sim, tem a ver. E principalmente para estar ligada às crianças, já que a minha área, na medicina, seria a da pediatria. Está tudo ligado. E uma das minhas filhas tirou, precisamente, essa especialização. Tudo para trabalhar com crianças e jovens, sim.

Trabalhar com crianças hoje é muito diferente de quando iniciou a sua carreira? A evolução da tecnologia, presumo, contribuirá para tal.

Sempre fui muito ligada às novas tecnologias. Sou apaixonada por essa área. E mesmo no que diz respeito às necessidades educativas especiais, utilizam-se esses recursos. As aplicações, por exemplo, cativam muito as crianças, que aderem muito aos computadores e aos tablets. E, claro, pesquisei muito sobre essa área a nível pedagógico e consegui cativar. Resulta com os alunos, mas com moderação. Hoje em dia há uma oferta enorme que ajuda o professor. Por isso, sou fã das novas tecnologias e tenho sempre uma lista de projetos na escola que tratam o tema, para além das áreas curriculares. Com esses projetos, trabalho todas as áreas e penso que desenvolve a criatividade e autonomia dos alunos.

Trabalhando com crianças, leva a investigação que faz a nível da pedagogia para a vida fora da escola?

Tenho duas netas que, infelizmente, vivem em Coimbra. Acompanho-as sempre que posso. A mais velha vai para o primeiro ano agora e fui trabalhando com ela. É aquela coisa da “avó-professora”, sabe? Ela costuma perguntar como se escreve isto ou aquilo. Mas prefiro falar com ela sobre valores: como deve estar numa sala de aulas, por exemplo, ou promover a importância da escola e da educação. E é importante passar a mensagem de que e a escola é um sítio para se estar feliz.

De que forma é que a Emília procura contribuir para a felicidade dos alunos, independentemente dos seus resultados escolares?

Um aluno tem de ser feliz. O meu objetivo é contribuir para isso. Mas é muito fácil ser professora de bons alunos. É fácil, mesmo. O desafio é, nas turmas heterogéneas, ter de procurar mais estratégias para os alunos com dificuldades as superarem. E o que interessa é o esforço que o aluno faz. Como professora tento sempre incentivar mais. Por isso, como vê, as mesas da sala de aula estão dispostas para que os alunos trabalhem em grupo. E utilizo a aplicação “Classdojo” que incentiva o trabalho colaborativo. Cada grupo tem um aluno com mais capacidades, por assim dizer, para ajudar outros que tenham mais dificuldades. Tem surtido muito efeito. Sentem-se todos mais responsáveis, porque fazem trabalhos em conjunto.

O trabalho na sala de aula passa, portanto, pela entreajuda. Com a ajuda da tecnologia, sempre.

Sim, é exatamente isso, a todos os níveis e áreas disciplinares. Nesta sala há espaço para dramatizações, por exemplo. E sim, temos uma escola bem equipada a nível tecnológico, é formidável. As novas tecnologias despertam os alunos, que ficam mais motivados para trabalhar. E se eles sentem que estão a aprender, ficam contentes e, portanto, felizes.

@João Bastos/ Mais Guimarães

Como professora primária, transmite conhecimentos de diversos temas. Não é desgastante?

Não, nada! Temos um horário de sete ou oito horas semanais de português e matemática. Todos os dias começamos por português e matemática, que necessitam de maior concentração. Depois, temos o Estudo do Meio, que os alunos adoram. Para os mantermos atentos, as aulas não podem ser muito expositivas. Têm de ser dinâmicas, para os cativar, como as expressões. Trabalhamos diversos temas, também: a fruta, o dia do pijama, a internet, entre outros. Há diversas formas de dar os conteúdos. Como é óbvio, vejo que, por vezes, eles não entendem os conteúdos. Porquê? Porque os programas são muito extensos e estão desatualizados. Estão desfasados da faixa etária, são muito complexos… Mas temos de os dar. Explico, explico e explico e só desisto quando todos os alunos percebem. Todos os alunos têm direito ao conhecimento e ao saber.

Ao longo destes 20 anos terá formado centenas de crianças. Costuma vê-los por aí?

Vejo e eles reconhecem-me, abordam-me. Penso que fica sempre um carinho pelo professor do primeiro ciclo. Costumo dizer que os meus alunos são como meus filhos. E, neste momento, tenho 25. Eles estão muito tempo connosco. Tem de haver paciência, cumplicidade. Eles têm de gostar do professor e, claro, o professor tem de gostar deles. Temos sempre dificuldades comportamentais, mas a gente consegue reverter essa situação com paciência. Como acontece em casa. Se tivermos de chamar à atenção uma criança que se porta mal, fazemo-lo.

Se as crianças espelham na escola a educação que recebem em casa, o contrário também acontecerá?

Sim. E a parte positiva, principalmente. Não trago os problemas de casa para a sala de aula: entrando na escola, sei que tenho de ter outra postura. Eles notam se o professor estiver triste. Somos o exemplo para eles, como digo. Tenhamos ou não problemas na esfera pessoal ou em questões de carreira. O mais importante é ter tempo para trabalhar com os alunos.

Passando tantas horas com os seus alunos e, como disse, vendo-os quase como “filhos”, consegue desligar-se do que se passa na escola quando chega a casa? Ou quando está de férias, por exemplo.

Não. Estou sempre a pensar no que hei de fazer para os alunos e passei as férias a planear este ano letivo. Faz parte do meu espírito… Talvez por ser professora (risos). Estou sempre ligada à corrente.

Este agrupamento representa muito para si?

Esta escola é uma casa. É família. As minhas filhas educaram-se aqui. Estou neste agrupamento há 20 anos. O meu marido trabalhou no agrupamento durante 40 anos. É, para mim, um exemplo para a escola pública. Eu estou sempre ansiosa para que chegue o dia 01 de setembro. Esta dinâmica faz-me falta. É como um novo ano, uma agenda nova, uma sala de aulas nova. Tudo novo. É rejuvenescer.

 

 

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