ESPERANÇA, UM BEM GRATUITO

Por César Machado

“A esperança é um bem gratuito, / tanto se paga para ter como para não ter.

Então é melhor ter”. Vinicius de Moraes.

O grande poeta brasileiro viveu muito e amou ainda mais. Amou as letras, amou as filhas, amou os amigos, amou a música, amou as crianças, amou suas companheiras, amou a natureza e amou o mundo. Para todos deixou lindíssimos versos, num permanente hino à poesia que foi a sua  vida. Essa capacidade de amar traduzia-se bem num outro poema em que dizia

Quem já passou por essa vida e não viveu, / Pode ser mais mas sabe menos do que eu, / Porque a vida só se dá pra quem se deu, / P’ra quem amou, pra quem chorou, p’ra quem sofreu, / Quem nunca curtiu uma paixão / Nunca vai ter nada, não. (…) / Ai de quem não rasga o coração, / Esse não vai ter perdão.

A presença de Vinicius no círculo aberto dos seus amigos era uma espécie de serviço público, um bálsamo que vinha das palavras encantatórias, de quem tinha o dom de dizer de modo bonito o lado bom da vida e de tratar o resto a partir do modo de o mudar, mais do que se resignar ou de carregar mais para o fundo. Talvez acreditasse, que o pessimismo é uma profecia que se cumpre. Isto paga-se. E Vinicius era o “Poetinha” do povo. Autor de geniais poemas, viu-se popularizado pelas letras de canções que assinou, sobretudo com Tom Jobim, sendo o mais universal dos poetas de todos os “Brasis”. Terá sido um caso único, o amor e empatia criado com a sua comunidade, o povo brasileiro – quando as rádios e televisões anunciaram a sua morte, muitos saíram correndo, dos bares, de casa, do trabalho, chorando a sua dor na rua, em comunhão, dizendo, “morreu o poetinha, morreu o nosso poetinha”.

A singular popularidade de Vinicius, serviu de motivação para que muitos tivessem  presente a palava “esperança”, esse bem gratuito. E funcionou porque Vinicius partilhou, deu-se, viveu “com” os outros. Recorda o  Dasen do filósofo alemão Heidegger, que dizia ser da essência do homem -o “Dasein”-  ser o homem “um ser com”…”um ser com ou outros”. Para alguns, vai um curto passo entre “um ser com…” e “um ser para…”. Vinicius diria que, se é da essência do homem “ser com”, as coisas ganham muito mais graça acrescentando a modalidade “ser para…”. O mundo deixa de terminar no umbigo do próprio. E todos na envolvente ganham com isso. Foi o que foi Vinicius. Um “ser com“ e um “ser para” ou outros. E haverá maior alegria que “dar”? A quem tem a possibilidade de tornar melhor o mundo dos outros, saindo do sofá, cabe a obrigação ética de o fazer, com isso se fazendo mais feliz e tornando mais feliz o mundo dos demais.

É por estas e por outras que “talvez não seja a vida um facto consumado”, como defendia outro genial poeta/músico brasileiro –Chico Buarque. Não é da essência do homem ser infeliz. Pelo contrário. Isso é a negação dessa essência, o contrário do que procuramos. Da nossa essência é procurar a felicidade, fazer esse caminho. Sermos e fazermos os outros felizes, acreditando que a reciprocidade existe, admitindo que o que fizermos, teremos.

Calha bem possuir códigos que nos ajudem a levar assim a vida. Um lema muito simples pode ajudar:

não fazermos nada que desonre a memória dos nossos pais ou que envergonhe os nossos filhos. Um imperativo de consciência. Se for possível acrescentar algo que melhore o que encontramos, um imperativo ético, ai é perfeito! Afinal não custa nada.

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