Europa e vacinas: mais uma oportunidade perdida

Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

Lembro-me bem do dia em que Portugal aderiu à então designada CEE. Eu e os meus pais fomos almoçar fora com um casal amigo e os seus filhos. A dada altura, uma das filhas do dito casal colocou uma questão que, na sua ingenuidade, era mais do que pertinente: “se vamos agora entrar na Europa, afinal onde é que estávamos antes?”

Apesar da resistência de alguns setores, uns mais à esquerda, outros mais à direita, a tal entrada “na Europa” era vista pela maioria com esperança. Após anos em que até os GNR cantavam “quero ver Portugal na CEE”, muitos achavam que aquela podia ser a alavanca que nos podia guindar para um futuro melhor. Portugal, que toda a vida tinha vivido voltado para o oceano Atlântico, tinha agora que dar meia volta e finalmente encarar de frente o continente em cuja periferia se tinha fundado.

Os primeiros anos da adesão pareciam dar razão aos otimistas. Os fundos europeus entravam em Portugal a grande velocidade e o desenvolvimento do país veio a ser inegável. Claro que estas contas são normalmente feitas mais com os olhos postos no “haver” do que no “deve”. É que a adesão foi também sinónimo de uma reconversão forçada da nossa economia que deixou muitos setores “de cócoras”. Todavia, no final do dia, o saldo era percebido como positivo e o euro-ceticismo passou a ser fenómeno de nicho.

O pior veio depois. A crise das dívidas soberanas veio a colocar várias coisas a nu. A primeira delas foi que Portugal tinha embarcado numa aventura chamada euro que nos colocou a crescer anemicamente durante uma década e nos deixou à mercê dos mercados financeiros. Pior. Na hora do aperto, percebeu-se que a União só o era de nome e que para muitos países a palavra solidariedade era claramente preterida em favor de outras como punição e austeridade.

Países como Portugal foram forçados a seguir uma política económica pensada como um ato de contrição que já na altura se antevia como profundamente errada e que hoje é vista como uma aberração. Na autobiografia de Obama percebemos a incredulidade com que os americanos olhavam para o “austericídio” europeu.

Foi preciso um político não eleito chamado Mario Draghi para, com simples três palavrinhas, pôr fim à crise: “whatever it takes”, disse ele. O BCE faria o que fosse preciso para salvar o euro. E assim o salvou.

A relação de muitos com a EU nunca mais foi a mesma. No meu caso, sendo um europeísta convicto, o facto de a Europa nos ter falhado quando dela mais precisávamos foi demais para mim.

Até que chegamos a 2021. Na ressaca do Brexit, a Europa tinha aqui a oportunidade de ouro para demostrar a sua imprescindibilidade e que estar dentro era bem melhor do que estar fora. Uma pandemia levou os países europeus a unirem-se, decidindo em conjunto levar a cabo o processo de aquisição de vacinas.

Pois chegamos ao dia de hoje e essa política revelou-se um desastre que só é aumentado quando nos comparamos aos EUA e ao Reino Unido.

A reconciliação de muitos europeus com a sua União poderia e deveria ter sido feita agora. Não o foi. Não sei a quantos mais golpes destes sobreviverá esta União, que parece só estar à espera de que se apresente a governar num dos seus maiores países um partido anti-europeu, para então se desmoronar qual castelo de cartas. Já esteve mais longe. Ou melhor dito: está cada vez mais perto.

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