EUROPEIAS: 27 DE MARÇO DE 2019

Por Ana Amélia Guimarães

No rescaldo das eleições europeias, a tentação para as múltiplas leituras dos resultados é grande. Independentemente dos resultados concretos das diferentes forças políticas, há dois aspetos imediatos que me parecem passíveis de serem discutidos. Um deles é a confirmação de uma tendência que se vinha delineando de forma crescente, ao longo de sucessivos atos eleitorais, falo da abstenção.

O estado de uma democracia vê-se, talvez sobretudo, pelo grau de participação que os seus cidadãos manifestam em relação à coisa pública. A demissão dessas responsabilidades cria um clima de “deixa andar” e “de não vale a pena” que justifica o daninho “analfabeto político”, aquele que, no dizer de Brecht, é o pior de todos os analfabetos, pois “ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. (…) O analfabeto político é tão limitado que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”. No entanto, a abstenção apresentada revela muito mais que incumprimento cívico. Revela algo que os “estadistas europeus” e os europeístas acríticos teimam em não ver: o divórcio claro e litigioso entre os cidadãos e o chamado “projeto europeu”. Esta revelação, cada vez mais óbvia parece não preocupar os eurocratas. Desde que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma não há problema, pensam eles. E assim tem sido.

Nesta breve crónica, ainda com os resultados a quente, outra nota queria deixar. Tem que ver com o resultado dos chamados partidos ecologistas (verdes) e pró-animais. Uma onda verde sublinha a preocupação que existe em relação aos problemas ambientais e do futuro do planeta, bem como uma cultura de “proteção” animal imbuída de paternalismos e de filosofia new age. Sendo legítimas as preocupações e as atitudes, não deixa de ser dolorosamente irónico, também, as preocupações que os países ricos se podem dar ao luxo de ter, poluindo nos outros continentes e pactuando, por omissão, com o capitalismo predatório de recursos. O problema ambiental é um problema global, não pode ser uma medalha da boa consciência do mundo ocidental. Só com resoluções globais, e não de uma parte apenas, se dá resposta a estes problemas que passam, obrigatoriamente, pelo combate à pobreza e ao subdesenvolvimento.

 

Nota à parte.

Em Guimarães, Praça da Oliveira: não sei se já repararam num edifício que está a ser restaurado, sem licença atribuída (é o que diz explicitamente o alvará exposto), mesmo ali em frente à igreja e ao Padrão do Salado. Já não me surpreende que no centro histórico se construa sem licença, o que surpreende e choca é a “torre” que, sobre o telhado, está a ser construída. Não sei se aquele edifício já teve ou não uma “coisa” assim, o que impressiona é o volume e a fealdade que aquilo impõe à praça, património dos vimaranenses e da humanidade.

Como é possível?

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