Fazer parte da abstenção contra a própria vontade

Natalina Martins tem 38 anos e vive em Urgezes. “Em 20 anos que voto, esta vai ser a primeira vez que vou faltar a uma eleição, porque estou em isolamento profilático. Não vou votar não porque não quero, mas porque não me deixam.”

No dia 16 de janeiro a vimaranense tentou fazer, com a mãe e o marido, a inscrição para o voto antecipado. O marido conseguiu, Natalina e a mãe não. “Voltamos a tentar no dia 17 e não conseguimos. Depois passou o prazo.”

Este é um dos muitos casos que demonstra “as falhas no sistema de inscrição”. Natalina conta ao Mais Guimarães que era validada como eleitora, “mas o erro que dava era de morada não validada. Eu já votei nesta freguesia, em Urgezes, a minha mãe também, inclusivé já precisei de atestados da junta de freguesia de morada e foram-me passados.”

“Como cidadã portuguesa estou completamente revoltada”

No pedido de voto antecipado apenas era necessária a “identificação, morada, número do cartão de cidadão e nome. Não foi pedido nenhum comprovativo de isolamento ou teste positivo.”




A vimaranense fez uma reclamação, por escrito, à Câmara e questionou as pessoas que foram recolher o voto do marido. “Como eu estão muitas pessoas, são milhares de pessoas. As pessoas que estão isoladas, se calhar mudavam as coisas. Eu como eleitora, e como cidadã portuguesa, estou completamente revoltada.”

Natalina Martins é apenas um dos muitos casos que não poderá votar nas presidenciais no próximo domingo, 24 de janeiro. Falhas no sistema, isolamento profilático e testes positivos à covid-19 são situações que levarão milhares de pessoas a não exercer o direito de voto.

“Ao estarmos calados não chegaremos, com certeza, a lado nenhum”

Inês Sá Frias é atriz e está a ajudar “a redigir queixas” de pessoas em isolamento profilático ou infetadas. Em três dias chegaram-lhe aproximadamente 2.000 pedidos de ajuda. Outras queixas lhe foram chegando, contou ao Mais Guimarães, “pessoas no estrangeiro que estão impedidas de se deslocar aos consulados porque o país onde vivem está em extremo lockdown, e pessoas que não conseguiram votar porque houve falhas no sistema/site de inscrição”. Inês enviou vários emails, expondo a situação, acreditando que “foi criada uma abstenção imposta ao não serem pensadas condições para que quem está nesta situação possa votar”.

Esta situação vai levar algumas pessoas a “considerar quebrar a lei (e, em alguns casos, implicar pôr outros em risco – o que não cabe na cabeça de ninguém e não pode ser feito!!)” ou “fazer parte da abstenção contra a vontade”. As respostas são escassas e, a resposta automática do Ministério da Administração Interna (MAI), “apenas explica por escrito que por lei não podemos votar”.

A mudança pode não acontecer, “mas ao estarmos calados e ao não lutarmos, não chegaremos, com certeza, a lado nenhum”, escreveu.

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