GARCIA JOALHEIRO: UM CONTO DE EXPANSÃO E IMPLOSÃO

Um edifício devoluto na Rua Central, bem próximo do centro cívico da vila de Pevidém, é o símbolo que resta daquela que, nas décadas de 80 e de 90, foi uma das maiores empresas de ourivesaria da Europa. O Mais Guimarães conta uma história da Garcia Joalheiro, firma que ascendeu ao topo do setor para depois cair abruptamente até à falência, em 2002, pelos olhos de um dos mais antigos funcionários.

Paulo Teixeira entrou para os quadros da Garcia Joalheiro em fevereiro de 1985, pouco tempo depois da empresa ter começado a operar. Registou-se como o funcionário número nove, e recebeu, no primeiro ordenado, 6.500 escudos (cerca de 32,5 euros), subindo para mais do dobro (cerca de 75 euros), no segundo mês de trabalho.

O trabalho decorria no subsolo, precisamente por debaixo do prédio localizado em frente à Escola do Bairro (antiga escola primária), numa área que se estendia quase até ao local onde se situa o posto dos correios, dividida pelas várias secções com os seus ofícios, desde “aqueles que faziam os modelos em quantidade industrial” até aos “cravadores das pedras preciosas”. O atual presidente da associação Alma Branca, que gere uma escola sociodesportiva em parceria com a Fundação Real Madrid, escolheu a “criação”, onde o “trabalho passava por criar as peças já em ouro”, como anéis e brincos.

“Todas as semanas saía uma coleção nova. Íamos buscar o ouro, que vem em barra e é derretido. Depois, é metido nos cilindros para ficar enquadrado. Depois, puxávamos o ouro em fio redondo. Há vários processos por que o ouro passa para ser transformado num anel. Por exemplo, um anel de duas gramas desperdiça 18 gramas”, explicou o antigo ourives.

A produção de material novo, salientou Paulo Teixeira, foi precisamente uma das razões que impulsionaram o crescimento da Garcia Joalheiro, conjuntamente com a capacidade de pagar salários acima da média comparativamente com as empresas de ourivesaria de Gondomar e da Póvoa de Varzim, que lhe permitiu contratar os “melhores artistas” e passar a dominar o mercado.

“O Garcia é que mandava no mercado: ele subia os preços, os outros subiam todos. O senhor Garcia descia e os outros desciam todos. Nos primórdios, a grama devia valer 12.500 escudos (62,5 euros), o que quer dizer que, por semana, fazíamos entre 150 e 175 mil contos (entre 750 e 875 mil euros) só na nossa secção. Depois, havia a dos fios, em que era muito mais fácil produzir 20 quilos de ouro do que nós 10 quilos”, descreveu.

O elevado volume de vendas elevou a firma de Joaquim Garcia a granjear o estatuto, segundo o antigo funcionário, de “maior fábrica de ourivesaria que houve na Europa até 1995”, capaz de exportar para países como os Estados Unidos ou a Venezuela, e o impacto do vigor económico fez-se sentir numa vila já repleta de atividade industrial, nomeadamente do setor têxtil, com a atividade dos restaurantes, das pastelarias e dos quiosques a fervilhar em torno do negócio do ouro.

“Ao princípio, tínhamos a cantina, mas depois passou a ser muita gente e deixou de existir. Enchíamos os restaurantes todos. O mercado em Pevidém foi revolucionado pelo Garcia Joalheiro”, Paulo Teixeira

O edificio de cinco pisos, que ocupa a proximidade do posto dos correios e das decrépitas instalações da antiga fábrica têxtil TARF, é a memória mais clara que resta dos tempos em que as pedras se ainda cravavam no ouro em Pevidém. Com cinco pisos, transmite uma imponência, que acaba por não estar ligada aos tempos áureos da empresa. O imóvel evidencia-se, ao invés, como uma das peças que desencadeou a derrocada que viria a culminar na falência, em 2002.

Paulo Teixeira explicou que a obra do novo edifício estava “orçada, no início, para 100 mil contos”, mas que, no final, acabou por ficar “por mais de 450 mil contos”, por causa de um riacho que passa no local e que originou “uma derrocada” na primeira construção.

“Ele teve de comprar camiões de brita para desviar o riacho para o lado e cismou que tinha de construir ali, e, depois, começou a receber muitos fundos europeus, porque candidatava-se a tudo a ganhava tudo”, recordou.

As novas instalações foram o primeiro passo de uma trajetória descendente que envolveu gastos elevados com a equipa de ciclismo, com as corridas de automóveis, e com a aquisição de veículos topo de gama para proveito pessoal, ao mesmo tempo que a empresa começou a apostar na produção em grande quantidade em anéis com safiras, mais baratos.

Paulo Teixeira, uma das primeiras pessoas a ingressar na empresa, saiu em 1998, quando tinha 25 anos, pouco tempo depois de ter ficado, pela primeira vez em 12 anos, com um ordenado em atraso. Foi um momento “custoso” para si, porque o ambiente lá vivido “era como o de uma família”.

“A empresa era daquelas em que o dinheiro era certinho estar na conta até ao dia 28. Houve uma altura em que chegámos ao dia 22 do mês seguinte e ainda não tínhamos recebido. Decidimos deixar de trabalhar”, contou, revelando que, no início de outro mês, “pagou meio ordenado do mês e outro meio do mês anterior”.

Anos depois, ficam as memórias, que acabam por vir à tona num encontro dos ourives, realizado todos os anos, a 01 de dezembro, em que “a maior parte das pessoas vai”.

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