GUALTERIANAS – QUE FUTURO?

Paulo César Gonçalves,

Autor, Dramaturgo, Filósofo-a-dias

A propósito do retorno da Feira de Artesanato à Alameda de São Dâmaso (óptima medida!), recordo um texto publicado em Agosto de 2018, e por mim lido numa reunião de reflexão sobre as Festas Gualterianas (na presença de decisores políticos e representantes de associações culturais):

Todas as celebrações têm os seus altos e baixos: é inevitável. Mas uma coisa é a natural ordem do progresso (com todas as suas qualidades e defeitos), outra é a secundarização deliberada de fenómenos marcadamente populares/tradicionais.

As Gualterianas evoluíram a partir das feiras francas de São Gualter, festejos medievais de cariz religioso/pagão (como quaisquer outros).

Na viragem do século XIX para o século XX, a principal celebração da cidade de Guimarães era realizada bem fora do perímetro citadino: a Romaria Grande de São Torcato.

Na cidade, havia as pequenas, porque circunscritas, Nicolinas (ainda com a designação “O São Nicolau”) e a Romaria do São Tiago da Costa (desaparecida na década de 50 do século XX), esta a maior celebração “encostada” aos muros da Velha Guimarães (junto ao Mosteiro da Costa, organizada por Urgezes, Costa e Atães, três freguesias que, curiosamente, organizam, durante o mês de Maio, peregrinações à Penha, não sei se um resquício conjunto dessa celebração, ainda que bem diferente).

As Gualterianas são quase uma resposta dos caixeiros (os “futricas”) às Nicolinas, ainda que muitos dos entusiastas de umas fossem também os precursores das outras (de que são exemplo o Professor/Comandante José Luís de Pina e o Padre Gaspar Roriz).

Ambas são traços indissociáveis daquilo a que alguns chamam, pertinentemente, “Vimaranencidade”.

Os traços populares dos festejos não devem ser mascarados/secundarizados com base em ditaduras estéticas, mas podem, e devem, actualizar-se.

É, por isso, fulcral, uma discussão muito séria sobre o futuro das Gualterianas (e das Nicolinas, noutro âmbito, mas que toca neste), e se quererão que as mesmas sejam festas de Cidade ou festas de território (da cidade, portanto).

Para isso, é preciso fazer-se um trabalho de base, atractivo, fresco e cativante, começando por lançar raízes de uma forma muito efectiva: apontar aos mais jovens, às futuras gerações: a criação e fomentação de uma disciplina de ‘Estudos locais’ (de resto, proposta ao Orçamento Participativo de 2017) para os 1º , 2º e 3º ciclos. Sem bairrismos exacerbados, sem demagogia, sem aproveitamento: apenas, e só, assegurar o futuro (de forma responsável).

É necessária a revitalização deste e de outros números tradicionais (e deixar de ter vergonha da palavra ‘tradição’), contando com a actuação das associações de todo o concelho, das entidades e dos artistas locais, levando a sério a missão (começando pelo profissionalismo e respeito pelo trabalho de todos): entregar-lhes a concretização de alguns dos números, de forma rotativa; servir de mostra ao que se faz por toda a Guimarães.

A edilidade teve, a meu ver, acções acertadas: espalhar números pelo espaço citadino (falta é perceber qual o critério dos mesmos), afastar as diversões do epicentro da festa (as diversões não são a festa), apostar numa comunicação (a nível de imagem) harmoniosa e respeitadora do cariz da celebração.

Mas não chega: as costumeiras barracas/tendas deveriam percorrer as ruas (não percebo o encosto para uma zona inóspita, uma vez que noutros eventos, como a Afonsina, ou a Noite Branca, isso não acontece); deveriam ser fomentadas Feiras do Livro e de Artesanato (pela Alameda, pela Muralha, etc); os obreiros da Marcha devem ser reconhecidos como profissionais de qualidade e a própria Marcha deve assumir o profissionalismo próprio a uma cidade que se diz eminentemente cultural.

Guimarães não pode menos que isto.

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