Hélder Vareta: “O futebol tem tudo e nós não temos nada”

Hélder Freitas, também conhecido por Hélder Vareta, é o convidado da revista Mais Guimarães na edição de novembro. O vimaranense, de 37 anos, é internacional português pela seleção nacional de basquetebol em cadeira de rodas, numa história de vida marcada por um acidente, mas com sonhos cumpridos e outros ainda por cumprir.

© Cláudia Crespo / Mais Guimarães

21 de agosto de 2008. Uma memória difícil de apagar?

Sim, difícil. Dá para digerir, mas ainda é difícil e marcante.

E há um ritual todos os anos nessa data, certo?

Sim. Acordar e tentar andar nesse dia.

Amante de motos de pista, de quatro rodas, de provas de bicicleta de downwill. O acidente acaba por ser num simples convívio de amigos e de bicicleta.

Certo. No dia 21 de agosto de 2008 andava de mota, mas, entretanto, os meus colegas convidaram-me para um passeio de bicicleta. Fui a casa, pousei a mota, e num simples salto, neste caso uma lomba, caí mal. Era o meu dia. Bati com as costas numa árvore e fiquei paraplégico. A vida mudou a 100%. Abandonei as motos, as bicicletas e muitas outras coisas que adorava fazer. Meti-me noutras coisas novas.

Como aparece o desporto na sua vida?

Através de uma maratona solidária, no Porto, organizada pela Bike Tour. Faltou um elemento com incapacidade para a prova de bicicleta e convidaram-me para a corrida. Entretanto, alguém que está ligado ao desporto em cadeira de rodas, chamou-me para experimentar basquetebol no APD Paredes. Fui uma vez, fui duas, e gostei. Agora, não vivo sem isto.

Curiosamente, desportos com bola não eram a sua praia.

Nunca foram a minha praia. Nunca gostei de bola. Mesmo para ir ver era por favor. Nunca liguei muito.

© Cláudia Crespo / Mais Guimarães

No basquetebol, além de internacional, já participou em três campeonatos europeus.

Ainda em Paredes fui chamado para ir à República Checa, em 2016. Sempre quis seleção, antes de cadeira de rodas, mas era em desportos motorizados. Agora, isto é melhor que as motas. É o meu alívio. Tentei manter o meu lugar até hoje.

E qual é a melhor sensação?

Cantar o hino. Jogar é muito bom e interessante, mas cantar o hino da nossa seleção é demais. Só por aí já vale a pena os dias que fico fora de casa.

Começou a jogar em Paredes e agora joga em Braga. Jogar na sua cidade é complicado ou ainda tem esse objetivo?

Tenho, porque sou daquelas pessoas que só desisto quando morrer ou quando parar. Enquanto tiver pulso para andar, eu vou andar. E já digo pulsos porque não posso dizer pernas. Gostava que houvesse em Guimarães e estava disposto a deixar tudo e começar tudo do princípio. Mas nunca seria do princípio, porque já tenho alguma experiência e curriculum. Gostava que houvesse desporto adaptado em Guimarães em que estivesse metido. Abandonava tudo. Gosto muito de estar onde estou, a APD Braga acolheu-me bem, fez tudo por mim e continua a fazer, mas a minha cidade é a minha cidade.

O que está a dificultar?

São os custos. Dizem que são os custos. É o Vitória, é o futebol. O futebol tem tudo e nós não temos nada, infelizmente. Poderíamos ter, porque conseguimos encher um pavilhão e representar Portugal na mesma. Conseguimos fazer tudo o que um futebolista faz.

Mas há praticantes?

© Joana Meneses / Mais Guimarães

Há praticantes e neste momento até temos três atletas femininas, uma delas de Guimarães, a Sara Coutinho. Começou no ano passado e já começa a dar cartas. É outra das que diz que se houvesse em Guimarães, que vinha. Basta ir a um hospital ou a uma escola. Basta ter uma incapacidade que não se possa jogar basquetebol a pé. Basta isso. Se tiver um problema no joelho, ou nos pés, já é o suficiente para poder jogar. Há atletas.

É uma pessoa reconhecida, mas faltam alguns reconhecimentos?

Sim. Sou uma pessoa conhecida, mas não sou reconhecido. É a diferença. Na minha zona de conforto, toda a gente me conhece e reconhece. Mas eu queria mais e gostava de ter mais. Sou uma pessoa que faço pela cidade e gostava de andar com Guimarães ao peito. Não estou a dizer a nível de Vitória, não quer dizer que tenhamos de estar ligados ao Vitória, mas por qualquer clube de Guimarães. Como tenho orgulho de cantar o hino da cidade, também tinha orgulho de gritar, em vez de dizer APD Braga, dizer Guimarães. É um dos objetivos que gostava que fosse a avante.

Nas redes sociais, verifiquei que ficou magoado com a Gala do Desporto.

Fiquei, porque a Câmara de Guimarães ajuda-me por eu jogar em Braga e chegou-se à Gala do Desporto e houve reconhecimento para o futebol, houve reconhecimento para a Guimagym, houve reconhecimento para aquilo e aqueloutro. E eu, que tinha acabado de chegar de um Europeu, ninguém me disse nada. Já faço isto há onze anos e parece que não, mas já é muito tempo, uma vida. Sempre quis cá em Guimarães, mas nunca foi possível. Só estou em Braga porque sou obrigado.

A cadeira que usa para jogar é especial. Em termos de custos, a Federação ajuda, há patrocínios ou é o Hélder que tem de suportar?

O clube ajuda e tenho patrocínios particulares, porque esta cadeira é minha. Concorri à Associação Salvador e fui premiado. Tive de dar uma percentagem. Para isso tenho os meus patrocínios, que se podem ver aqui nas rodas e agradeço por estarem presentes nestes anos todos. São eles que me apoiam e não a cidade de Guimarães. Esta cadeira custa 8.500 euros e não é fácil comprar. Mas não quer dizer que tenha de ser uma cadeira de 8.500 euros para começar o basquetebol em Guimarães. Há cadeiras mais baratas, há cadeiras usadas que podem ser fornecidas.

Muitos conhecem-no por Hélder Vareta. De onde surge o nome?

Através do meu pai. Antigamente existia o inspetor Vareta, que tinha uma gabardine até aos pés, tipo inspetor Gadget. Ele foi ao café e houve alguém que começou a chamar-lhe Vareta. E pronto, passou para o filho.

“Não me queixo por estar como estou, mas agradeço por estar vivo”. É a grande mensagem de vida que quer passar para quem o segue ou conhece?

Não só para quem me conhece. É para todos que tenham tido uma infelicidade ou um problema. Um problema resolve-se. Só não temos cura para a morte. O resto é para andar.

“Sou daquelas pessoas que só desisto quando morrer”

Hélder Vareta

Trabalha, conduz, faz as lides da casa. Não há tempo para lamentos?

Trabalho e trabalho muito. Trabalho numa oficina de carros, nestas condições, na lavagem de carros. Fora isso, tenho um biscate relacionado com carros. Sou muito ativo e faço tudo. Conduzo qualquer carro. Motas também já me sentei em cima delas. Não é aquela coisa de andar de mota outra vez. Não. Deu para matar o bichinho e dizer que já me sento numa mota outra vez. Quem sabe, um dia, consiga andar melhor.

É uma pessoa realizada ou há sonhos para cumprir?

Agora que já realizei os que tinha para realizar, quero mais. Mas se não os realizar…. O sonho que tinha para realizar era casar com a mulher que estou. Fácil. Fácil não, foi difícil. Fácil, depois de estar realizado. Ter uma filha. Mesmo com os problemas que tenho, consegui. Já tem sete aninhos e está tudo bem. A nível de casa, a casa também é minha. Não é a minha casa de sonho, mas é uma boa casa e é a casa que quis ter. Os sonhos que vierem por aí fora são extras. Talvez ter um carro melhor ou uma casa com piscina. Se não der para ter, não faz mal. Estou realizado. A nível pessoal, caso apareça a possibilidade de fazer uma cirurgia para isto ou aquilo, já não sei se estou disposto a passar por tudo novamente. De recuperação sinto-me realizado. Da vida, vou lutando um dia atrás de outro.

Diz que as suas sapatilhas não são a sua cadeira de rodas, mas sim a Selma, a sua esposa. Quer explicar?

Eu conheci-a com 14 anos e batalhei para namorar com ela até aos 18. Foram quatro anos atrás de uma rapariga. Era aquilo que queria e sempre fui uma pessoa de objetivos. Aos 18 anos começamos a namorar. Ao fim de cinco anos de namoro, ela esteve presente na altura do acidente e nunca me abandonou. Antes de entrar para o bloco, disse-lhe que era nova, bonita e que tinha a vida toda pela frente. Como tinha noção do que me tinha acontecido, disse-lhe para seguir o caminho dela. A resposta que me deu foi: não te perguntei nada. A Selma é que me fez andar. Consigo andar de canadianas, com os braços, e é ela que é o meu amparo. Mas claro que também contei com a força dos meus amigos e familiares.
Passados cinco anos casei. Foi uma questão de organizar a vida, porque o trabalho que tinha não deu para continuar. No dia em que fiquei efetivo, pedi a Selma em casamento. No ano seguinte casei e no ano seguinte tive uma filha.

© Cláudia Crespo / Mais Guimarães

E o nome da sua filha também tem uma história.

É mais uma história de vida. O meu melhor amigo e primo direito da minha esposa, faleceu num acidente de carro e chamava-se Ivo. Daí a minha filha chamar-se Iva, em homenagem. Teria sido o meu padrinho de casamento, mas não foi possível.

Na fase de ser pai, confidenciou-me que era obcecado pelo trabalho. O que mudou?

Ouvir a minha filha dizer que o pai nunca está em casa e pensar que o dinheiro comprava tudo. O dinheiro não vale nada. O dinheiro ajuda. Gosto muito de trabalhar, mas já não troco a minha filha e a minha esposa por um serviço extra. Colocando a mão na consciência, eu lutei muito para ter esta vida. Não vou deixá-las sozinhas em casa. As opções são elas. Se não há dinheiro hoje, amanhã aparece. Quero é acordar. Acordando, tudo irá resolver-se.

E o regresso ao escutismo?

Foram 22 ou 23 anos seguidos. Entretanto, a minha filha já está e eu prometi que ia, até para a incentivar. Tenho ido aos poucos. Faz parte de mim também. Aprendi muito nos escuteiros e a minha infância toda foi lá. E, na altura do acidente, eles estiveram sempre presentes. Agora, estou a tentar conciliar o basquetebol, o trabalho, a vida de casa, e os escuteiros.

“Sonha, serás livre de espírito. Luta, serás livre da vida”. Quer explicar aos nossos leitores?

É fácil. Se sonharmos, conseguimos ter o que queremos. Lutar, como eu tenho lutado, e digo isto porque estou há 14 anos nisto, posso dizer que sem lutar nunca tinha chegado onde cheguei. Se, com 37 anos, consegui fazer tudo o que me passou pela cabeça, foi porque lutei e sonhei.

As suas tatuagens também contam histórias. Quer revelar?

A data do acidente foi a primeira. Depois fiz um olho. Depois entrei para o basquetebol e estou a meter cesto dentro do olho, bota o olho a esta data. Depois tenho o 420. No segundo europeu que fui, na Bulgária, não tínhamos uma sala de reuniões, mas tínhamos um quarto. Perdemos o apuramento para a fase seguinte por um ponto, toda a gente falou, toda a gente chorou. E aquele número ficou gravado. Depois tenho eu e a minha filha, com a mão dela dada a mim, a dizer que nunca a vou abandonar. E tenho a do Ivo. É uma nota rasgada por ele. Tenho a nota guardada na carteira. Uma vez fomos comer e eu queria pagar a minha parte. Dei-lhe os dez euros e, naquela de insistir um com o outro, a nota rasgou. Na parte que ficou para mim, ele escreveu Ivo, o nome do restaurante e a data. Na parte que ficou para ele, eu escrevi ao contrário. E tínhamos de andar sempre com ela. Quem não a tivesse, tínhamos de pagar a multa de cinco euros. Aliás, no dia em que ele teve o acidente, eu encontrei a nota. Eu continuo a tê-la. Quando ele faleceu, decidi tatuar. Caso perca a nota, ela está sempre comigo.

Para terminar, o que faltou dizer ou gostaria de dizer?

Para lerem sobre isto e pesquisarem sobre o basquetebol ou sobre o desporto adaptado. E para me ajudar a criar cá em Guimarães. Estou disposto para o que for preciso.

© Joana Meneses / Mais Guimarães

©2023 MAIS GUIMARÃES - Super8

Publicidade

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?