Impacto da pandemia na saúde psicológica

Emanuela Lopes

José Luís Gouveia

O ano de 2020 será certamente um ano gravado como um marco histórico e por razões não necessariamente boas, mas que será falado e recordado como a altura em que o mundo parou e se rendeu a um vírus microscópico que colocou a humanidade de “joelhos”, como refere o Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

Existe e existirá certamente um mundo pré e um mundo pós Covid19.

O mundo não estava preparado para lidar com o novo coronavírus e muitas decisões foram tomadas priorizando a saúde física, como teria que ser numa primeira fase. O que assistimos é que, passados todos estes meses de evolução do Covid19, a saúde psicológica tem sido claramente subvalorizada, verificando-se grandes alterações na vida psicológica das pessoas. Nota-se sobretudo um predomínio das questões ansiosas e depressivas, quer seja pelo aumento progressivo e exponencial de casos confirmados e suspeitos, quer pela incerteza dos tempos futuro que se aproximam.

Certo é que a vulnerabilidade das empresas, dos empregos (muitas pessoas já se encontram em situação de desemprego ou de trabalho precário), a situação económica e social, o isolamento social, a taxa de mortalidade (que continua a aumentar, mesmo os óbitos não Covid19), a afetação que o vírus teve diretamente em nós próprios ou em pessoas que nos são significativas, das medidas de prevenção e proteção, onde nem sempre as mensagens oficiais das autoridades públicas são realizadas e transmitidas de uma forma eficaz, coerente e consistente (como o uso obrigatório de máscara, possível novo confinamento seja por concelho seja na nação, possibilidade de um recolher obrigatório), potencia respostas psicológicas diversas, das quais, em muitos casos, dão origem a patologias mentais que podem ser moderadas a graves.

O grau de intensidade destes eventos, a própria variedade de reações de cada um de nós e alguns factores de risco existentes (factores sociodemográficos como viver sozinho; antecedentes de doença mental; consumo abusivo de substâncias como o álcool ou drogas; factores psicológicos como baixa auto-estima, insegurança e outros fatores de personalidade que traduzam maior vulnerabilidade)) podem, por um lado aumentar a ansiedade e sintomas depressivos em indivíduos saudáveis e, por outro lado, potenciar problemas de saúde mental pré existentes.

Contudo convém realçar que as situações adversas também podem fornecer a possibilidade do individuo se tornar psicologicamente mais forte e crescer enquanto ser humano. Ao trabalharmos a Saúde Psicológica, ao investirmos na nossa Saúde Mental, podemos trabalhar e fortalecer mecanismos de reforço psicológico, e sair desta pandemia mais fortes e mais saudáveis, para encarar desafios futuros.

Por exemplo, treinar e reforçar a resiliência, que é um dos fenómenos caracterizados por padrões de adaptação positiva no contexto de adversidade e é considerada como o fenómeno pelo qual muitas pessoas mantêm a sua saúde psicológica; desenvolver a capacidade de autocompaixão, que é tratar-se a si próprio com a mesma gentileza, preocupação e apoio que teria com alguém próximo; perceber que a natureza compartilhada do sofrimento diminui a sensação de isolamento que a pandemia nos trouxe e a capacidade de procurar soluções alternativas para vencer os momentos de crise, e consequentemente trazer consigo otimismo e esperança. Estes são alguns factores a ter em conta e que podem contribuir para a redução de sintomas psicopatológicos (como a ansiedade, stress e depressão) e para o aumento do bem estar psicológico.

Outros aspetos positivos que podemos promover e colocar em prática, apesar dos múltiplos efeitos negativos que esta pandemia nos está a trazer, são a possibilidade de passar mais tempo consigo mesmo, refletir sobre novas estratégias para a sua auto-realização (novos hobbies e actividades que sejam prazerosas e tragam satisfação e desafios); oportunidade de estar mais junto dos filhos, dos companheiros, ter mais tempo para escutar e compreender as suas emoções, assim como fomentar hábitos saudáveis.

Estas estratégias podem promover uma saúde psicológica e de bem estar, ao mesmo tempo que permitem a adoção de comportamentos saudáveis que poderão prevenir ou minimizar o sofrimento e o impacto negativo da pandemia Covid19 e, tão ou mais importante, a preparação para o pós-covid19.

No desafio significativo que se está a tornar o combate à pandemia Covid19, tornou-se crítico e imprescindível que as questões ligadas à saúde psicológica sejam pensadas num perspetiva global e sempre presentes na abordagem ao combate desta pandemia. A Psicologia pode, não, DEVE, fazer parte desta realidade, que seja para mudança de comportamentos quer seja para a prevenção da doença mental e no tratamento e desenvolvimento de intervenções eficazes para reduzir o sofrimento psicológico das pessoas.

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