INCÊNDIOS NO VERÃO, GRIPE NO INVERNO OU O FALHANÇO DO PLANEAMENTO

por ANTÓNIO ROCHA E COSTA
Analista clínico

Perguntarão os leitores o que têm a ver os incêndios com o síndrome gripal, ao que me cabe responder que ambos fazem subir a temperatura, não existindo, até agora, qualquer tratamento ou solução específica para os mesmos.

Fazendo jus ao ditado popular que diz que só nos lembramos de Santa Bárbara quando troveja, os portugueses compram normalmente aquecedores no Inverno e ventoinhas no Verão, o que leva muitas vezes ao esgotamento de stocks dessas mercadorias.

Mas se os cidadãos em geral se comportam desta maneira, aqueles que nos governam não lhes ficam atrás, como facilmente se comprova pela falta de prevenção adequada e atempada no combate à gripe no Inverno e aos incêndios florestais no Verão.

Os dados da Direção Geral de Saúde mostram que morreram 11.745 pessoas em Dezembro passado, sendo o número mais elevado dos últimos dez anos. Entre 1 e 8 de Janeiro, morreram 3835 pessoas, mais 49 por dia que no mesmo período do ano anterior, sendo que a causa da maior parte destas mortes é imputada ao frio e à gripe.

Todos os anos o Ministério da Saúde estabelece planos de contingência para responder aos picos da gripe e todos os anos ouvimos falar no entupimento das urgências, chegando os pacientes a aguardar 11 e 12 horas pelo atendimento.

Diz-se que a solução passa por alargar os horários de atendimento dos Centros de Saúde e de criar uma cultura de pedagogia que incentive os doentes a procurar os Centros de Saúde, evitando os Hospitais como primeira escolha. Mas a realidade é que, ano após ano, a situação não se modifica e o “filme” é sempre o mesmo: corredores dos Hospitais repletos de macas com doentes e urgências a rebentar pelas costuras.

Será assim tão complicado criar uma equipa pluridisciplinar de profissionais de saúde e mobilizar todos os equipamentos disponíveis do Sistema Nacional de Saúde, incluindo as Farmácias, para enfrentar de vez o “inimigo” viral que nos visita todos os anos?

Mas se no Inverno o flagelo é a gripe, no Verão temos a praga dos incêndios e aqui a ineficácia no combate aos mesmos é parecida com a do combate à gripe.

Todos os anos, no pico do Verão, quando tudo está a arder, fala-se em medidas que devem ser tomadas para evitar que no próximo ano aconteça o mesmo e no entanto, apesar dos onerosos meios terrestres e aéreos postos ao serviço do combate ao fogo, também neste caso o “filme” se repete ano após ano.

Recentemente, o Governo atual propôs um plano de reforma da floresta, que se pretende seja um instrumento eficaz na prevenção dos incêndios. Contudo, ainda mal são conhecidos os seus contornos e já os especialistas vêm dizer que esta reforma será o princípio do fim da floresta portuguesa, ao mesmo tempo que elogiam a Lei de Bases da Política Florestal, aprovada por unanimidade em 1996 e a Estratégia Nacional para as florestas de 2006.

Não temos dados nem conhecimentos que nos permitam afirmar quem tem razão, mas uma coisa é certa: legislação e estratégias para debelar o fenómeno dantesco parecem não faltar, o que é preciso é passar da teoria à prática, caso contrário vamos continuar a ver passar os aviões, que dizem ser de combate aos incêndios.

E entretanto, vai-se perdendo uma das maiores riquezas do país, que é a sua imensa mancha florestal.

 

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