Loucos anos 20

por Vânia Dias da Silva
Jurista e Professora convidada no IPMAIA

À porta da silly season menos silly e mais séria de que tenho memória, vale a pena pôr em perspectiva o que já conhecemos daquele que perdurará na história como o ano da crise sanitária mundial. Que começou lá longe na China ainda em 2019 mas que, ante o desvario da OMS, rapidamente abanou o mundo de 2020 e só Deus sabe como e quando terminará.

E é precisamente pela OMS e pela sua absoluta incapacidade de lidar com o problema que queria começar. Não que a OMS tivesse (ou tenha) uma varinha de condão que, num passe de mágica, pudesse ter impedido a pandemia. Era, obviamente, impossível. Mas se a tivesse reconhecido antes – e tinha todos os dados para o fazer – talvez o desastre não fosse de proporções tão gigantescas. Porém, a OMS preferiu confiar na sorte e esperar que a SARS, esta SARS, fosse como as anteriores – a anunciar tragédias que, afinal, se revelaram de pouca monta. Desta vez ameaçou e cumpriu. E a OMS de nada serviu.

Mas mais grave: não só a OMS esteve ausente, como as suas hesitações e contradições tiveram um efeito fatal nos nossos decisores políticos que, ao invés de pensarem pela sua própria cabeça e imitarem aquilo que de bom se fazia onde já se conhecia melhor a doença – preparando-se para o que aí vinha – preferiram ir atrás das titubeações daquela, resultando numa tragicomédia a que, por vergonha alheia mas, sobretudo, pelas consequências, preferia não ter assistido.

Do milagre português passamos para o desaire (ou desastre?) português, arruinando o último resquício de esperança – o turismo – que agora, rejubilemos, queremos remendar fazendo menos testes. Brilhante! No modo, no tempo e nas consequências próximas.

O desfecho é de todos conhecido e só não foi pior por ora porque, valha a verdade, o Governo gastou o que não tinha para conter os danos e desesperou pelos milhões da Europa que, afinal, acabarão por cá chegar, não na forma e no montante ansiados, mas lá virão. O diabo é que os milhões não só não têm a arte de salvar o que já ruiu, como não se transformam sozinhos e, a avaliar pelo que já se conhece, voltaremos aos mesmíssimos erros (graves) do passado, que nos mantêm atados e dependentes de uma Europa cata-vento que, a continuar assim, não chegará ao seu centenário de vida.

Basta olharmos para Guimarães. O exemplo é paradigmático. Com os euros a toldar a nossa solitária existência, nada melhor do que gastá-los em obra pública. Agora já não são as estradas. Nada disso. Muito melhor. Agora vamos apostar no metro Guimarães-Braga e, já agora, (diz-se) vamos também fazer um metro Guimarães-Porto, que é muito mais moderno do que um comboio. Novamente, brilhante! Brilhante! De reindustrialização, nada. De nos reinventarmos, nada! De olharmos para nós no mundo de outra forma, nem uma palavra. Daquilo que verdadeiramente pode salvar um país, zero.

O que aí vem não augura nada de bom e faz lembrar a euforia dos loucos anos 20 que, exactamente 100 antes, auspiciavam a liberdade, a fortuna e a glória e que acabou como sabemos – na guerra mais sangrenta que a história conheceu, na miséria e na desgraça de uma Europa que, a custo, se reergueu. Será este um eterno devir?

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