MAIS SAÚDE

por ANA AMÉLIA GUIMARÃES
Professora

A pausa das festas natalícias levaram-me ao hospital de Guimarães, quer como paciente quer como acompanhante familiar. Este serviço público abrange uma assinalável área geográfica, que engloba os concelhos de Guimarães, Fafe, Terras de Basto e Vizela.

O brutal desinvestimento na saúde, que se verificou nos últimos anos, com especial incidência e despudor durante o finado governo do PSD-PP, cortando em verbas, pessoal e encerrando serviços de atendimento, fez com que o recurso ao hospital se tornasse a única opção viável e economicamente sustentável para quem está “aflito”.

O trabalho que os profissionais de saúde desenvolvem é de elevada responsabilidade e altamente desgastante. Um trabalho realizado, pelo que pude ver, com grande profissionalismo e com a atenção e a dedicação possíveis face às circunstâncias concretas que “no terreno” se levantam. Por exemplo, no Hospital Senhora da Oliveira (HSO), a sala de observações da urgência da pediatria é muito pequena, não cabendo nela mais do que 3 macas, improvisando-se, nos assentos para visitantes, camas e aconchegos para as crianças em observação, o mesmo se passando com os adultos. Num e noutro local os familiares acompanhantes aguardam de pé horas a fio. É neste ambiente sobrelotado e de ansiedade que enfermeiras e enfermeiros, médicas e médicos e demais profissionais trabalham garantindo, na adversidade, o funcionamento desta conquista do bem público que é o Serviço Nacional de Saúde (SNS).

A paranóia dos cortes cegos e da visão empresarial do serviço público leva a situações no mínimo lamentáveis. Repare-se: para controlar despesa com a luz (só pode ser essa a explicação) a entrada para o HSO, durante a noite, é feita completamente às escuras numa via dividida em três faixas, separadas por pinúsculos de metal que confundem, de imediato, quem lá vai uma primeira vez. Um perigo à entrada do hospital. Por seu turno o parque de estacionamento é caro uma vez que não há alternativas para quem vem a acompanhar um doente às urgências, pois não pode abandoná-lo e ir deixar o carro, por exemplo, na superfície comercial em frente (até porque à noite esse parque está fechado).

Durante décadas ouvimos o discurso das infinitas vantagens, qualidades e excelência da “gestão privada”. Este modelo de gestão privatizado seria o modelo a seguir, até porque não haveria outro, como dizia a senhora Thatcher. Pelos exemplos de gestão do BPN, BPP, BES e BANIF parece que a coisa não é tão líquida….

Apesar do desinvestimento e tratos de polé de que tem sido vítima, o SNS é um bem que urge cuidar, não devendo ser reduzido a um serviço mínimo de saúde, mas a um paradigma de qualidade. Sabe-se que a saúde e o ensino são duas áreas cobiçadas pelo “donos disto tudo”. A estratégia de apropriação privada é simples: primeiro fabrica-se o consenso de que a gestão privada e empresarial é a melhor, a mais eficaz e menos onerosa para o estado, em simultâneo injecta-se a ideia de que é preciso “cortar nas gorduras” do estado e de que, a cereja no cimo do bolo, não vamos pagar nada por isso. É a coberto destas mistificações que se sucedem políticas de asfixia dos serviços públicos e respectiva desvalorização do trabalho exercido pelos seus profissionais, enquanto se promove o negócio privado desses sectores chave de um estado-nação. Defender o SNS é pois, também, uma forma de ser patriota. 

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