O Barão do Souto do rio, Ernesto Ruella, saía de casa, na sua figura negra e esguia, para fazer a sua visita matinal ao adro, igreja e cemitério. Ti Lurdes expunha a fruta da sua loja e esperava a clientela e o mesmo fazia o Acácio na loja em frente do patrão Varanda. Casimiro atravessou a praça e à porta da Câmara saudou quantos ali estavam cavaqueando. Iniciou a subida do Outeiro e olhou a estátua branca e falou para os seus botões:
Que raio! Não estaria ali melhor o coreto? Onde vai agora a música tocar?
Chegou ao Outeiro e entrando em casa foi logo para a cozinha preparar a Canja de Sardinha que havia prometido a quatro amigos, entre eles o Dr. João Cura, que lhe havia dado a receita e queria ver se tinha sido bom aprendiz! Despejou a saca das cebolas e dos tomates coração de boi, carnudos como se quer. Amanhou e escamou as sardinhas e salpicou com sal grosso. Cuidadosamente, pôs as 12 sardinhas numa travessa e enquanto punha as seis cebolas cortadas em pequenos pedaços a alourar no azeite com dois dentes de alho, salsa e uma folha de louro.
Minutos depois, juntou os tomates carnudos sem pele e o pimento vermelho cortados em minúsculos cubinhos para melhor se desfazerem e fazerem uma papa. Fez uma “boneca” onde juntou grãos de pimenta e piripiri que mergulhou no estrugido já empapado, que depois de desfeito com a ajuda da mexedora colher de pau, mas antes retirou a boneca com os condimentos. Verteu alguns pingos de água para a papa não pegar e depois de esperar que o estrugido estivesse apurado retirou a folha de louro e dispôs as sardinhas em cima até cozerem. Depois de cozidas por alguns minutos com a ajuda de uma escumadeira retirou-as, e tirou-lhes as peles e espinhas. Cobriu o estrugido com água suficiente para a canja, deixou levantar fervura, temperou com sal e mergulhou os lombos de sardinha na Canja que estava pronta a servir com um raminho de salsa a enfeitar.
Esta receita da Murtosa, segundo o Monsenhor Manuel Silva Pereira de Macinhata do Vouga, homem que marcou profundamente a história da região, aconselha, este pitéu, deverá acompanhar com um bom maduro tinto da região de Águeda, Bairrada. São indispensáveis os seguintes ingredientes: sardinhas, cebolas, dentes de alho, tomate, pimento, louro, salsa, azeite, água, pimenta em grão, piripiri, água.
Os quatro amigos comeram e aprovaram a ementa do Casimiro, que ficou muito feliz pois tinha sido um bom aprendiz de cozinheiro.
Esta história com receita faz parte das “Memórias e retalhos da antiga Águeda”, gentilmente cedida por Grão-Mestre da Confraria do Botaréu, João Carlos Breda, Águeda.
Bom apetite!
Um abraço gastronómico
