Moncho Rodriguez: “Será um espetáculo de explosões das vontades dos vimaranenses”

28 anos após a sua estreia, “A Grande Serpente” está de volta a Guimarães e promete provocar inquietação ao público vimaranense. O tão aguardado regresso da icónica peça de Moncho Rodriguez, que diz voltar à cidade berço com a “mesma vontade de descobrir coisas”, está agendado para o próximo dia 2 de julho.

Como é voltar a serpentear por Guimarães quase três décadas depois?

Quando fala em quase três décadas fico com a sensação de um peso muito grande. Podia vir mais pesado, com o ‘fardo’ desse tempo todo, mas não. Venho leve, com os mesmos olhos que estive há muitos anos atrás em Guimarães. Com a mesma vontade de descobrir coisas, com a mesma ilusão, com sonhos e também com a missão de fazer com que as pessoas me mostrem a sua identidade… a sua terra. Na realidade, eu venho ao encontro de pessoas.

Encontrou gente diferente daquela que viu aqui há muitos anos?

Passaram três décadas, passamos por muitas coisas em termos sociais. Há 28 anos, a minha chegada aqui a Guimarães foi causada por algo inesperado, e isso é o fantástico da vida. Há 28 anos atrás eu fui convidado por um jovem político numa altura em que era raro existirem jovens políticos por aqui. E esse jovem tinha um sonho muito grande, numa altura em que a sua cidade se estava a reconstruir, de rebuscar a memória da sua identidade e dos seus princípios. Este jovem, chamado Francisco Teixeira, resolveu apostar numa oficina de teatro numa cidade em que não havia um palco, um auditório e com o Teatro Jordão fechado. O objetivo era inquietar e, de alguma forma, provocar as pessoas.

E conseguiu?

Naquele momento houve uma grande revolução nesta cidade, quando se inscreveram nesta oficina mais de 300 pessoas. Mais do que uma oficina, foi o nascimento de um grande movimento cultural. Não por mim, mas pela cidade. Foi tudo gente que queria ver a sua cidade no topo, gente que precisava da cultura e que, no fundo, se não sonhou, já deveria ter sonhado que Guimarães seria um dia Capital Europeia da Cultura.

O que sente quando se lembra da apresentação d`A Serpente? Que sentimentos lhe desperta?

Coisas muito bonitas. Naquela altura Guimarães era uma cidade do interior de Portugal muito isolada. E ter a ousadia de termos neste espaço – dentro de uma estética totalmente inovadora – pessoas com vontade de se expressar, foi muito forte. Mais do que um ato político, foi um ato de amor pela terra e de amor uns pelos outros. Foi muito bonito. Naquela altura não se podia dizer que existia uma certa ‘imobilidade’. Hoje em dia as pessoas estão a deixar passar o tempo, eu não sou saudosista, mas antigamente a hipocrisia tinha nome, hoje em dia é serem politicamente corretas. Nós contribuímos para isso, mas neste momento penso é necessário revirar a terra.

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Tem sentido isso no trabalho que tem realizado para esta apresentação?

Para este novo trabalho vieram pessoas bastante diferentes, bastantes jovens e também gente com alguma idade que está a viver outra vida. De uma forma geral, destaco o compromisso das pessoas com esta terra que mudou muito. Não podemos negar.

Há um maior ou menor compromisso das pessoas para com Guimarães?

Guimarães já está feita, e para muitas pessoas isso é mau. Esta terra já tem todos os equipamentos culturais, tem teatro, centro de convenções, multiusos e por aí vai. Houve, de facto, um investimento muito grande na construção e houve ainda um investimento enorme para que os turistas pudessem usar o centro de Guimarães para comer e beber do bom vinho e apreciar boas comidas.

O que está a faltar a Guimarães?

Gente. Eu acho que as pessoas de alguma forma precisam de espaço. Eu acho necessário os espaços para as pessoas, não espaços para os eventos. Não é comprando cultura lá fora que iremos melhorar a situação dos nossos espetadores e dos nossos jovens. Não é só pelas referências que se formam as pessoas, elas também se formam pela sua participação ativa com o acerto e com o erro. Para fazer cultura é necessário errar muito. Temos de comprar a inquietação, a pesquisa e a experiência. Para isso não é necessário estarmos um ou dois anos a pesquisar quais os melhores destinos para a cultura nesta cidade.

Naquela altura surgiu um grupo de artistas que participaram na 1.ª edição da Serpente. Espera que nesta reedição isso possa acontecer de novo? 

Eu não espero reeditar nada, eu espero sempre estar a inovar em cada momento e são as pessoas que dizem o que vão fazer das suas vidas. Há 28 anos atrás não havia artistas, eram apenas jovens. Pessoas que não tinham programado ser artistas e o que aconteceu foi que aquele movimento todo lhes abriu portas no país, o que era bastante complicado dado o centralismo cultural forte que existia.

Havia ainda o sentimento de que tudo que vinha do interior ou da província era produto de segunda classe. Mais de 50 pessoas saíram do cenário da Oficina para o panorama nacional, e hoje em dia têm voz. Ora, como uma cidade do interior conseguiu produzir toda esta massa critica e artística? Certamente não caíram do céu porque do céu apenas cai chuva.

Teve um trabalho muito significativo no tempo que passou em Guimarães. Sente esse carinho na rua?

Muito carinho. As pessoas são muito carinhosas e isso significa que fizemos um trabalho com muito amor. Não é necessário sermos muito amigos, basta que sejamos profissionais e que cumpramos a nossa missão: dar tudo o que temos. A arte é uma, de ensinar-nos a viver e conviver. Os artistas são pessoas com sensibilidade elevada que têm vontade de partilhar o seu sonho com o espectador que é convidado a sonhar em conjunto. É nessa comunhão que faz com que a nossa cultura se enriqueça de gente muito mais humana.

Esse trabalho foi reconhecido, mas a dada altura o caminho de Guimarães e o caminho do Moncho separaram-se. O que aconteceu?

Opções. A minha opção sempre foram as pessoas e eu sou um homem que trabalha com as pessoas. Procuro tentar encontrar-me nas pessoas, tentar encontrar-me na memória coletiva e desencontrar-me também no meu imaginário. Todo o investimento que eu possa fazer será sempre na partilha de algum saber ou experiência. E sei que é importantíssimo e necessário termos estruturas para isso.

Acha que a aposta de Guimarães foi sobretudo nessas estruturas?

Sim, Guimarães apostou de uma forma política e bem, não quero discutir isso. Apostou na construção de equipamentos e em fazer com que a cidade ficasse com cerca de quatro ou cinco salas de espetáculos. Com espaços de exposição e arquiteturas fantásticas, agora o que me importa saber é o que habita o interior desses edifícios, qual é a alma que têm.

Não tem havido muito teatro em Guimarães?

Não sei, isso é opção dos programadores culturais. Eu gostava de ver as pessoas a produzirem e a serem incentivadas de alguma forma, como agora estamos a fazer. A refletirem sobre a sua atividade dentro da cidade, porque as pessoas não podem estar a usar Guimarães apenas como lugar de habitação.

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28 anos depois, Francisco Teixeira e a ASMAV são também responsáveis pelo seu regresso?

Isso prova que as pessoas continuam vivas e com vontade. Isso encanta-me e seduz-me ver pessoas teimosas e a saber o que querem para a sua cidade. Esse convite foi fantástico e eu disse-lhe na primeira vez que nos encontramos que iriamos fazer uma nova montagem da Serpente, mas nada que fosse aquilo que foi há 28 anos. Isto porque hoje em dia tudo está mudado e os princípios do prazer são outros, as pessoas estão comprometidas com outras coisas. Guimarães afastou, em determinados momentos, as pessoas da sua própria evolução.

Será que poderá haver aqui o reencontro de Moncho Rodriguéz com Guimarães, depois da construção dos equipamentos?

Eu só pretendo chegar até onde eu possa contribuir. Quem determina isso são as pessoas, da minha parte há disponibilidade como sempre houve. Tenho uma paixão muito grande por Guimarães, estive aqui oito anos e estive em todos os lugares e com todo o tipo de pessoas. Foi uma formação de toda uma geração que teve o seu resultado, não podemos esquecer isso. Eu não tenho nenhum mérito, eu apenas fui o agente provocador e continuo a ser o mesmo, só que com mais bateria para provocar.

E agora no dia 02 de julho, a que ‘provocações’ o público poderá assistir?

Vai ser um espanto, uma loucura muito bonita. Nesse tempo todo nós evoluímos e sonhos multiplicaram-se, a nossa vontade de expressão é tão grande que quase explode e os sonhos que agora sonhamos são de futuro. Tudo isso estará refletido em cada participante do espetáculo que será de imagens e puramente físico. Será um espetáculo de explosões das vontades dos vimaranenses.

De alguma forma o espetáculo estará ligado a este momento específico da nossa história? A realidade que vivemos pode ter algum reflexo na própria peça que vai ser apresentada?

Tem tudo. Temos um espetáculo do hoje, do desespero deste momento, da sede deste momento e da busca que queremos ter. Usaremos a arte para dar o nosso grito mesmo que não tenha sonoridade.

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