MOVIMENTO DA CRIAÇÃO MANTÉM ALTA ROTAÇÃO ATÉ 17 DE FEVEREIRO NO GUIDANCE

Decorrida a primeira semana da nona edição do GUIdance – com espetáculos de Victor Hugo Pontes, Mão Morta e Inês Jacques, Sara Anjo, Maurícia | Neves, companhia Wang Ramirez – acompanhada por centenas de amantes das artes, e da dança em particular, que lotaram várias salas para assistir às peças apresentadas (a maioria aqui inauguradas), o festival continua com toda a força até 17 de fevereiro com a locomotiva da criação a ser impulsionada pelas estreias de Miguel Moreira (Útero), Jonas&Lander, Joana von Mayer Trindade & Hugo Calhim Cristovão e Michael Clark Company, às quais acresce uma remontagem de Victor Hugo Pontes.

A segunda ronda de espetáculos abre, tal como a primeira, com uma peça de Victor Hugo Pontes. Estreado em novembro de 2011, no CCVF, Fuga Sem Fim regressará no próximo dia 13 de fevereiro ao ponto de partida, numa remontagem encomendada pelo GUIdance 2019. Construído a partir de uma ideia de João Paulo Serafim – realizador do vídeo que acompanha a peça –, neste espetáculo Victor Hugo Pontes propõe uma reflexão sobre a ideia de fuga e o ato criativo, em colaboração com intérpretes de hip hop, entre eles Marco da Silva Ferreira. Fuga Sem Fim surge depois de apresentar Drama no arranque do festival e há ligações possíveis a estabelecer entre ambos. Em Drama há um jogo de observação, protagonizado por elementos da comunidade, que criam um novo nível de olhar, entre o público e o que está a acontecer em cena. O público passa assim a observar os observadores que observam a ação. Já em Fuga Sem Fim, a noção de “observação” está presente, desde logo pela intermediação da projeção em vídeo. E há o simulacro. Ambos estão ligados, o simulacro e o instalar de um nível de observação intermédio entre público e acontecimento, entre o que acontece ao vivo e o que é filmado, num tom cinematográfico. “Existe o simulacro porque eles estão a fazer bocadinhos de teatro. Vão de carro e fazem um acidente, depois param, fazem uma fuga…, depois voltamos ao acidente, depois já vão no carro e há uma sobreposição de imagens projetadas atrás do carro que ressurgem mais à frente, com pessoas que estão a fugir a correr à frente do carro nuas…”. O final do espetáculo, antecipa Victor Hugo Pontes, acaba “numa corrida em contínuo mas cada vez mais lenta, numa caminhada sem fim”.

Na quinta-feira, 14 de fevereiro, às 21h30, outros filhos a Guimarães retornam para mais uma estreia absoluta, desta vez protagonizada pela Útero. Fraternidade I + II é um díptico dividido por um intervalo. Em Guimarães, Miguel Moreira estreia a obra completa, como um quadro quese completa em dois painéis. O ponto de partida é o mesmo: um caderno de anotação metódica das horas, que acompanhou a vida de uma pessoa a caminho dos 90 anos, refere o criador. “Um diário muito metódico, que sugeria uma organização mental… no final já só havia números. ‘Deitei-me à meia-noite’, depois há anotações de horas, ‘02h30 da manhã’, ‘03h30’… Tornou-se um registo do passar do tempo, de alguém que vai acordando ao longo da noite, e toma nota das horas em que desperta. Só tem números. Fez-me pensar que a Fraternidade seria a dança desse mundo, em que acordamos e adormecemos e não sabemos bem onde estamos.” Fraternidade é isso, mas é também, diz o autor, “o elo que liga os homens, no sentido de se tentarem compreender,de terem amor uns pelos outros”. Uma peça repleta disso mesmo, com cocriação e interpretação partilhada por Cláudia Serpa Soares, Francisco Camacho, Luís Guerra, Maria Fonseca, Miguel Moreira, Romeu Runa, Sara Garcia e Shadowmen.

O festival aproxima-se do fim da semana com uma viagem de Jonas&Lander (Jonas Lopes e Lander Patrick) até à Black Box da Fábrica ASA, na sexta-feira à mesma hora, para revelar o seu Lento e Largo, um trabalho fabricado no Centro de Criação de Candoso, local onde decidiram aventurar-se no passado mês de novembro para uma residência artística. O interesse da dupla pela robótica enquanto elemento performativo vem de trás, mas nunca deixa de causar estranheza. Em “Lento e Largo”, os robôs que dançam são um dos elementos que contribuem para o que chamam de poética da alucinação. Inspirados pelo surrealismo, reclamam a ficção como espaço que desafia a racionalidade.

No último dia de espetáculos do GUIdance 2019, o festival propõe uma dança a três passos, percorrendo três dos palcos pisados nesta edição. Às 11h00 e às 15h00, é tempo de navegar pelo Oceano criado por Ainhoa Vidal no Pequeno Auditório do CCVF. A poesia que se pode imaginar a partir dos animais e plantas que se encontram fundo do mar é a matéria a partir do qual se constrói “Oceano”, espetáculo para fazer sonhar crianças dos 6 meses aos 2 anos. Ao final da tarde, pelas 18h30, a peça Dos Suicidados – O Vício de Humilhar a Imortalidade de Joana von Mayer Trindade & Hugo Calhim Cristovão estreia-se na Black Box do CIAJG. O trabalho desta dupla é singular pela metodologia de trabalho assente num diálogo entre a experimentação, o pensamento e o discurso crítico. Depois de José Régio e Almada Negreiros, prosseguem a sua investigação sobre escritores portugueses, partindo agora da obra de Raul Leal.

O espetáculo final desta edição traz a Guimarães o grande iconoclasta da dança britânica, Michael Clark, que se estreia desta forma em solo nacional com uma peça em três atos que presta homenagem a três das suas fontes de inspiração musical (Erik Satie, Patti Smith e David Bowie), explorando as principais marcas da linguagem artística deste criador: o esbatimento das fronteiras entre o bailado clássico e a dança contemporânea, a moda, a música e as artes visuais. Este sábado, a Michael Clark Company apresenta assim to a simple, rock ’n’ roll . . . song. pela primeira vez em Portugal. Um momento singular para testemunhar a partir das 21h30 no Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor.

As essenciais atividades paralelas, que decorrem ao longo de toda esta edição do GUIdance , prolongam-se até dia 17, agregando público, artistas, escolas e pensadores. Neste segundo período do festival,   a Michael Clark Company orienta uma masterclasse no dia 15 de fevereiro, proporcionando uma experiência única de trabalho criativo que permite a bailarinos/as e alunos/as de dança de nível avançado um contacto privilegiado com alguns dos mais conceituados criadores internacionais da dança contemporânea. A jornalista e crítica de dança Cláudia Galhós visita a Escola Secundária Martins Sarmento (13 fevereiro) e a Academia de Bailado de Guimarães (14 fevereiro) para duas conferências – uma espécie de aula-conferência sobre a história da dança contemporânea, com a jornalista e crítica de dança, na qual se misturam olhares e processos da criação artística ao longo dos tempos – e modera a segunda parte do debate ‘A dança e as outras artes’ na Sala de Conferências do CIAJG (16 fevereiro).  Ángela Diaz Quintela orienta uma oficina para famílias na Casa da Memória de Guimarães a 17 de fevereiro, integrada no programa dos Domingos em Casa. Esta oficina – ‘O corpo como território de memória’ – tem inspiração no movimento, olhando para a arte como território de experiência e de liberdade, um diálogo entre o corpo, o museu, a memória e a imaginação. Nos dias 13 e 16 de fevereiro, após os espetáculos de Victor Hugo Pontes e Michael Clark Company, decorrem ainda as Talks com os respetivos criadores e intérpretes das peças Fuga Sem Fim e to a simple, rock ’n’ roll . . . song., num momento de partilha informal entre público e artistas no foyer do Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor.

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