“MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDA-SE A VONTADE”

Por Tiago Laranjeiro

Economista

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança / Todo o mundo é composto por mudança, / Tomando sempre novas qualidades.” Assim reza a primeira estrofe de um belo soneto de Luís de Camões. Para transmitir a mensagem que quero passar com esta crónica bem que poderia, simplesmente, transcrever o soneto na íntegra, deixando ao leitor a sua interpretação e aplicação a Guimarães.

Todos estamos a par das transformações por que passa a nossa cidade. O investimento imobiliário, a reabilitação de edifícios, o processo de “regeneração”. Por princípio, penso que poucos serão contra este processo “per se”. Mas estamos cientes da sua faceta negativa? Nas últimas semanas gerou intensa polémica a venda do edifício da sede do Convívio, um processo ainda inacabado que se teme que venha a significar a saída da associação do edifício que foi sua sede desde que nasceu. Mas há outros, como a venda do imóvel-sede da ACIG (aprovado pelos sócios como última linha de um processo de saneamento financeiro), o encerramento da oficina do mestre ferreiro Gaspar Carreira no Largo de Donães, e outros que sucedem, estão para suceder em breve ou especula-se que possam acontecer. Cada caso é um caso, com as suas especificidades e circunstâncias. Mas, se dermos um passo atrás e olharmos para o conjunto destes casos, aquilo que constatamos é que Guimarães está a atravessar um processo acelerado de transformação, ampliado por uma conjuntura favorável do mercado imobiliário.

Quando constatamos este facto, a pergunta que se segue é que Guimarães daqui resultará. Penso que poucos saberão, na medida em que isso resultará da vontade de um elevado número de agentes e decisores (poder-se-lhe-ia chamar “o mercado”). Eu não sou um agente ativo nesse mercado, mas considero-me seu “stakeholder”, pois sendo um Vimaranense que sempre viveu perto daquelas pedras com personalidade que fazem o centro da nossa cidade, sou parte interessada no seu futuro. E não sei se estamos a fazer a discussão certa sobre o que queremos todos, enquanto comunidade, para o futuro dessas “pedras”.

Um risco-limite que existe é que, na voragem destas mudanças, saiam do centro as instituições, habitantes tradicionais e “de sempre”, lojas e oficinas, enfim, o conjunto de pessoas e da sua cultura que habitam as pedras e formam a sua cultura e que, de algum modo, a sua identidade se perca. E que, passado o bom momento atual, venha um “inverno” qualquer, que o fluxo de turistas diminua um pouco, e se verifique que os pressupostos sob os quais foi construída esta “nova cidade” não são sustentáveis. Nesse cenário, já não estarão lá algumas instituições, habitantes tradicionais e “de sempre”, lojas e oficinas que lhe conferem a sua vida própria. E o inverno poderá ser então particularmente rigoroso para Guimarães…

As Nicolinas são uma boa alegoria do fenómeno a que aludi nos parágrafos anteriores. Tivemos este ano a “projeção” das Festas no genérico da telenovela, com uma encenação folclórica e colorida de um suposto cortejo Nicolino, “embelezado” com os pós coloridos que conhecemos das “color parties”, a lambada aportuguesada e umas quantas caras larocas a dançar, tudo enquadrado pela beleza das nossas pedras. Um “caldo (multi)cultural” ao gosto destes tempos, mas no qual cada elemento perde a sua originalidade e as identidades diluem-se num “mix” sincrético que quer agradar a todos, apelando “às massas”. Somos tudo. Não sendo nada.

“E afora este mudar-se cada dia, / Outra mudança faz de mor espanto, / Que não se muda já como soía.”

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