“Murukutu é uma pesquisa interior, que só agora é que faz sentido”

João de Guimarães concluiu os estudos superiores em música interativa e design de som, música eletrónica e produção musical. O artista vimaranense é um multi-instrumentista e “John and the Charmers” é um dos seus projetos pessoais. Recentemente lançou “Murukutu”, uma obra de criar sensações.

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Como é que tudo isto da música, entrou em si? Quando é que o bichinho começou a mexer?
Isto foi culpa dos meus pais. Eu tinha, 3 anos e meio quando fui para o conservatório. Os meus pais inscreveram-se também. A minha mãe não durou tanto tempo na música, ela é de ouvido e opinião e o gostar de acompanhar. O meu pai, sim, seguiu. Já tocava, cantava, e continua hoje em dia. Começou aí e depois em casa, que para além das aulas, termos o impulso de explorar e ter pais e família e amigos que nos vão mostrando coisas, e o gosto vai-se alimentando. Na altura tínhamos vinis e cassetes que íamos mostrando e passando de uns para os outros, e sempre que íamos a casa de alguém existiam discos que não tínhamos em casa, por isso acabávamos por fazer o nosso spotify de forma orgânica. A verdade é que havia muita atenção naquilo que se ouvia, às vezes tínhamos de esperar x dias para juntar dinheiro e ir a uma loja comprar o disco novo de x banda. Em casa sempre fui tocando vários instrumentos, que ainda hoje em dia é o que faço, não sou especialista em instrumento nenhum. Começou por aí, com a prática de ter ensaios e concertos e ia com o meu pai, quer em casa quer na sala de ensaios, ia experimentando, conhecer sempre mais. Continuo com esse bichinho de querer sempre conhecer e explorar outros instrumentos.

Quando começou no Conservatório, que instrumento começou a aprender?
Piano.

Foi por sua opção ou por influência de seus pais?
Não me lembro…os meus pais devem ter escolhido por mim. Foi nessa altura, ou mais cedo, que eles compraram um piano vertical já usado, por isso não sei seu eu já teria experimentado, mas teriam sido eles a tomarem essa decisão. O piano acaba por ser muito central para mim, não quer dizer que compunha sempre no piano, não obrigatoriamente, mas acaba por ser um ponto de partida, muitas vezes, para depois construir tudo à volta.

Como surgiu a oportunidade de aprender outros instrumentos?
Eu acho que o facto de em casa ter vários instrumentos ajudou. Eu sempre tive essa curiosidade e continuo, hoje em dia, porque eu nunca tive a vontade de ser o melhor pianista do mundo ou melhor guitarrista do mundo. E, ainda hoje em dia, eu não passo oito horas a estudar um instrumento. Para mim, o mais importante é poder explorar mais coisas e depois quando componho ou quando estou a fazer som ajuda-me a compreender a música na totalidade.

Por volta de que idade é que sentiu que queria fazer da música a
sua carreira profissional?

Não é fácil de responder, porque não há uma idade assim ao certo. Na verdade, eu fui crescendo e fui fazendo música, fui cantando, mais tarde fui gravando. Não tenho assim uma idade que eu dissesse que era mesmo isto, porque acho que fui crescendo com essa naturalidade. Claro que sempre com a ajuda e influência dos meus pais.

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Antes do seu projeto pessoal “John and The Charmers” que projetos tinha anteriormente?
Estou desde 2007 em “Fragmentos” como baixista, ano em que a banda voltou. Tive bandas quando tinha os meus 14, 15, 16 anos, que foi um período espetacular, nos anos 90, as bandas de garagem, pop, rock. Passei por muitas formações, uma vez ou outra fazer coisas sozinho, em casa a compor, mas nunca foi o meu forte ou naquilo que me inspirei muito. Fui fazendo, continuo a fazer, mas o meu forte não é chegar a casa hoje, amanhã e compor músicas e de repente num mês ter x músicas novas. Fui sempre de ir fazendo, mas depois tinha bandas onde escoava as ideias e também compor todos juntos que tem para mim uma piada maior. Criar em grupo, em equipa, esse processo sempre aconteceu muito.

Focando no projeto “John and The Charmers”, como é que surgiu?
Surgiu no dia 1 de outubro de 2012, numa madrugada, e deu-me uma ideia de uma melodia. Fui até ao Parque da Cidade, pus o telefone pronto a gravar para não me esquecer e fui cantarolando uma sequência de acordes, com ritmo, melodia. Acabei por criar uma letra e depois aquilo ficou quase pronto. 2012 foi o ano de Guimarães ser a Capital da Cultura e, então, estávamos com a cabeça cheia de ideias, de vivências e experiências. No dia seguinte voltei a tocar a cantar a música só para reavivar a memória, gravei em casa direitinho no computador, só para ficar numa pasta guardada. Depois, passado algum tempo fiz outra música e, ao fim 2 ou 3 meses já tinha 3 ou 4 músicas, umas mais finalizadas, outras ainda por finalizar e algumas combinavam. Comecei a colocar aquilo mais direitinho, gravar em casa, fazer uma pré-produção e, depois fui mostrando a um amigo ou outro e disseram para gravar em estúdio. Sem compromisso fomos marcando, passaram 2 ou 3 meses e quando fui para gravar já tinha 10 músicas.

E foi assim que surgiu o primeiro álbum?
Sim. E a parte boa foi irmos para estúdio gravar, consegui gravar com muita gente, fomos 18 músicos em estúdio a gravar, inclusive pessoal no estrangeiro que gravou e enviou para cá, e isso enriqueceu as ideias que eu tinha. Cada um deles trouxe um bocadinho de si e o resultado é aquele, por isso é uma experiência espetacular.

Quer falar do seu novo projeto “Murukutu”?
Este Murukutu é o resultado destes anos todos. Eu comecei a fazer Murukutu em agosto de 2019, mas não era este nome. Mais uma vez uma pasta com gravações para não me esquecer, melodias que me iam surgindo, ritmos, e depois comecei realmente a juntar e a ver que, mais uma vez, algumas combinavam. Para já lancei duas, tenho mais uma para lançar daqui a umas semanas. Tenho para aí 12 músicas, em que 7 estejam praticamente terminadas, só retoques finais, e tenho pra aí mais umas 5 em processo de gravar mais instrumentos. Murukutu é uma pesquisa interior, que só agora é que faz sentido. Murukutu é mais para criar sensações, quase não tem letra. Este é o projeto mais profundo de mim, no sentido de ir buscar coisas mais espirituais e ritualistas. É muito interessante criar coisas que depois podemos viajar nelas, e todos os dias são diferentes porque temos sensações diferentes.

De que forma a pandemia afetou a si e aos seus projetos?
No meu caso enquanto profissional, eu trabalho como técnico de som na Oficina, que é a entidade que gere uma série de instituições em Guimarães, e como músico não dava para fazer concertos. Lá para junho, julho começou-se a fazer uma coisa ou outra, mas é um problema grande, que não envolve só meia dúzia de pessoas. Consegue-se agora começar a fazer alguma coisa, mas ainda assim os concertos são muito poucos comparados com o que tínhamos o ano passado por esta altura. Acho que se deve fazer, tendo claro todas as cautelas necessárias. Eu sou a favor de experimentar, ir vendo aos poucos.

Que projetos tem a médio e longo prazo?
Tenho estado constantemente a criar músicas novas. Algumas estão paradas agora porque não nos podemos juntar, mesmo para ensaiar. Tenho um projeto com pessoas ligadas à dança, para a qual estou a fazer a composição musical e sonoplastia. E tenho uma data de coisas de cruzamento de poesia, pintura e sonoplastia que quero muito fazer. Quanto ao Murukutu vou tentar manter uma regularidade a cada 3 a 4 semanas lançar uma música nova com um vídeo sempre associado.

Entrevista realizada para a edição de outubro da Revista Mais Guimarães.

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