NENHUM TEMPLO NESTA SELVA

Por Tiago Laranjeiro

No mês passado fui ao casamento de uns colegas de faculdade. Uma cerimónia muito bonita, mas também muito diferente de todas a que já assisti. Os noivos decidiram fazer uma celebração fora dos cânones. Os diferentes momentos da cerimónia e copo de água foram pontuados por intervenções e testemunhos dos convidados, em particular de amigos. Claro que a tónica dominante era o amor. Mas havia algo mais subtil a perpassar a maioria das intervenções: uma descrença, declarada ou implícita, na própria instituição que ali celebrávamos, o casamento.

O que é mais curioso é que esta descrença no casamento não é acompanhada por uma descrença no amor, mas sim na instituição em si. Um compromisso, assinado, torna-se uma obrigação e um limite à “liberdade”, com o qual muitos não se querem comprometer. Em seu detrimento, como um convidado declarou, prefere-se a busca de uma “felicidade individual”.

Não pude deixar de estranhar tal conceito de felicidade individual. Primeiro, porque não me parece passível de se tornar um valor absoluto, nem perto disso, pela sua intangibilidade e fragilidade. E, segundo, porque me é difícil descobrir valor numa autorrealização e autossatisfação; como se a felicidade, tornada valor maior e absoluto, fosse possível de ser vivida por alguém sozinho, consigo mesmo.

Este elevar da felicidade individual a valor máximo não é, na sua génese, muito diferente de outras manifestações a que já estamos habituados. Por exemplo, a personificação, que dá direitos até agora exclusivos dos seres humanos, a animais, em particular os de companhia. Ou a “cultura da selfie”, uma cultura de auto-obsessão narcisística assente na crença de que, mais do que únicos, cada um de nós é merecedor de uma atenção especial e exclusiva, de admiração, até de adoração. No espaço de duas gerações, passamos de obra de Deus para sermos cada um, um deus.

Neste caminho pela singularidade, afastamo-nos dos outros. “Eu tenho direito a ser feliz”. “Eu mereço um tratamento diferenciado”. E outras declinações fechando-nos em nós mesmos, alienando-nos do que está à nossa volta. Até que, isolados e afastados, somos efetivamente únicos – e também os únicos que tal podemos testemunhar.

[O leitor que tenha aguentado até este ponto do artigo perguntar-se-á: “e porque queremos nós saber disto? Este sujeito costuma escrever umas coisas sobre política e é por isso que o aturam no jornal…”]
Calma, este artigo é sobre política. Este individualismo, posto perante o outro e perante outros, revela um conflito cultural e de valores. Até aqui identifiquei-o como geracional, embora me pareça que essa generalização é injusta. É um conflito que opõe individualistas a personalistas, socialistas democráticos e marxistas. E os individualismos ganharam este mês maior representação parlamentar, com novos partidos com ideologias que têm na sua base diferentes declinações desta mesma ideia.

Haverá o benefício de uma maior representação de diferentes pontos de vista. Mas, por outro, essa cristalização de posições eventualmente quebrará alguns consensos, nomeadamente da “sacrossanta aliança” entre personalistas e socialistas democráticos em torno do valor da comunidade e da busca de uma integração plena nela.

Nada disto é novo, é certo. Já muito foi escrito, dito, apresentado, representado, cantado. Das secções de autoajuda das livrarias à balada Beautiful, da Christina Aguilera. E Kanye West, que eloquentemente pôs esta questão: “Formamos uma nova religião; nenhum pecado enquanto haja permissão, e a deceção é o único crime, e nunca ‘namores’ ninguém sem me contares a mim. (…) Seres humanos numa multidão; o que é uma multidão para um rei? E um rei para um deus? E um deus para um não-crente? Para um que não acredite em nada? Nenhum templo n(est)a selva.”

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