Neno: o doloroso adeus a um ídolo de várias gerações

Adelino Augusto Graça Barbosa Barros, mais conhecido como Neno, nasceu a 27 de janeiro de 1962 na Cidade da Praia em Cabo Verde.

Em fevereiro de 2016, quando fomos falar com o Neno, ele ainda não sabia o que ia acontecer na homenagem que um grupo de amigos lhe organizou e que aconteceu no dia 28 de janeiro desse ano, um dia a seguir ao seu aniversário quando completou uns insuspeitos 54 anos. Ocasião para a Mais Guimarães se sentar para conversar com este ídolo transgeracional do Vitória e que é hoje, também, uma espécie de provedor do adepto. A entrevista fez capa da edição de fevereiro de 2016.

© Mais Guimarães

Sabe o que vai acontecer logo à noite?

Não faço ideia. É uma iniciativa de amigos que se reúnem às terças-feiras e outro grupo que se junta às sextas-feiras, que comem e bebem bem – apesar de eu não ser grande bebedor, continuo na minha coca-cola -, mas acompanho. Gosto de os ouvir, ouvir as novidades, as histórias, a sabedoria deles. Eu sempre gostei de estar com pessoas mais velhas do que eu.

Como é que você fez 54 anos ontem e conserva sempre a mesma aparência?

[Gargalhada que lhe conhecemos] Estou mais velho, estou mais velho. Mas se calhar eu vejo a vida de uma forma mais leve. Eu vivo à minha maneira, o mais calma possível.

Mas isso tem que ter aí um bocadinho de genética.

É capaz. As pessoas costumam dizer que os pretos envelhecem mais tardiamente que os brancos. Mas pode ser genética também. Os meus irmãos estão aí e não aparentam em nada a idade que têm.

Quantos irmãos tem?

Somos seis e eu sou o mais novo. O codê [expressão em crioulo cabo-verdiano para irmão mais novo], portanto, aquele que andava sempre agarrado às saias da mãe.

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A família acompanha-o hoje?

Só a Simone [esposa] é que vai porque a minha filha está em Inglaterra. Tem 22 anos e a área dela é a arte e representação e isso em Inglaterra é visto de uma forma soberba. Ela sabe que é lá que podia ter a melhor formação possível.

Há quanto tempo é que ela está lá? Custou-lhe?

Há uns dois meses. Sabe que essa nova geração com a globalização tanto podem estar lá como aqui. Na minha geração e na anterior à minha é que era complicado. Hoje não, as pessoas emigram para melhorar a sua vida, crescerem. Mas claro que há a saudade.

Então consegue relativizar, se calhar isso está no sangue cabo-verdiano que por natureza é um povo de diáspora?

Também.  Pelo próprio futebol: andamos de um lado para o outro de repente. Apesar de ser um pouco duro, olhar para o lado e não a ver, ver o quarto dela vazio e chegam as lembranças do crescimento dela, das brincadeiras. Isso põe-nos um pouco nostálgicos.

Vocês costumam cantar juntos?

Ela é muito autónoma. Um dia fez um filme na escola onde estudou, em Vila Real, e convidou-me para a estreia e só quando cheguei lá é que as pessoas souberam que ela era minha filha. Disseram-me que ela tinha feito um trabalho fantástico e nunca tinha mencionado o meu nome. Eu achei isso fantástico.

Deixa-o feliz que ela consiga caminhar pelos próprios pés.

Sim. E não sei se o facto de ela ter ido para Londres não foi para triunfar sozinha, sem nos pedir nada. Vai autonomizá-la, mas por outro lado há uma tristeza porque qualquer pai quer pegar na mão da filha, guiá-la e protegê-la.

Voltando atrás: nasceu em Cabo Verde vai lá com frequência?

Muito pouco. Tenho pouco tempo de férias. Eu passei de jogador a diretor desportivo e durante oito anos não tive férias, depois fui treinador de guarda-redes e, ao mesmo tempo, relações públicas. Agora sou team manager. Quando os jogadores não estão aqui é quando o clube precisa de alguém para o representar. Eu, nos últimos 18 anos em que deixei de jogar à bola, tive férias uns três anos.

A sua mulher não se queixa disso?

Ela ia de férias para o Brasil com a minha filha. Eu é que ficava cá sozinho. E das poucas vezes que fui de férias, era para o Brasil, onde era mais provável de me poder desligar.

“Guarda-redes sempre fui, era sempre empurrado para guarda-redes por ser o mais pequeno mas já me reconheciam qualidades”

Neno

Quando vem para Portugal, vem por causa do futebol?

Nada disso. Vim para estudar e jogava nas ruas com 12, 13 anos. Não havia as condições que há hoje e um senhor convidou-me para jogar no Barreirense, que na altura servia de viveiro para clubes como o Benfica e o Sporting. Mas não gostei porque só tinha juvenis e eu era muito pequenino. Queria jogar com a malta do meu tamanho. E fui ter ao Santoantoniense. Guarda-redes sempre fui, era sempre empurrado para guarda-redes por ser o mais pequeno mas já me reconheciam qualidades. Quando me punham a central e começavam a sofrer golos mandavam-me para a baliza. Ninguém ganhava à equipa da rua Miguel Bombarda. 

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E como chega a profissional?

Estive no Santoantoniense, onde fomos campeões da região de Setúbal, passei para o Barreirense e cheguei até sénior quando o Benfica me foi buscar. Nessa altura pouca gente sabia que eu estava a treinar no Benfica porque esses estágios eram à porta fechada, no tempo do Eriksson, Humberto Coelho, Chalana, Bento e para mim isso teve uma carga emocional muito grande. Eram todos senhores – eram malandros! – mas tinham uma postura muito boa. Quiseram que eu assinasse um contrato para que outros clubes não me fossem buscar. Quando cheguei ao Benfica, a baliza era do Manuel Bento. Eu sabia que ali não tinha lugar e pedi para que me emprestassem, nem que voltasse para o Barreirense. Foi aí que vim para Guimarães.

Qual é a primeira recordação que tem de Guimarães?

A viagem interminável para chegar aqui. Quando cheguei, vinha do nada, de uma segunda divisão. Apaixonei-me pela cidade e as pessoas eram fantásticas comigo. A pessoa que me guiou, o Jorge Folhadela, era de uma família respeitada e onde íamos éramos muito respeitados, havia uma atitude muito boa e isso cativou-me. Comecei a jogar, as coisas correram-me bem, eu queria continuar cá, mas o Benfica não me deixou.

“Há dois guarda-redes bons em Portugal. És tu e o Bento e eu quero-te aqui”

Sven-Göran Eriksson

Voltou para o Benfica.

O Eriksson ligou-me a dizer que queria que eu fosse para baixo e disse-me: “há dois guarda-redes bons em Portugal. És tu e o Bento e eu quero-te aqui”. Claro que o titular era o Bento e estive lá dois anos a marcar passo. Cheguei a ir para o Setúbal, mas só joguei na parte final do campeonato. Foi quando o Dr. Pimenta Machado me ligou e disse que me queria como guarda-redes. Estive dois anos no Vitória e o Benfica voltou a obrigar-me a ir para a Luz outra vez. As coisas foram andando, eu a fazer jogos da Taça, o Silvino do campeonato, no ano seguinte trocávamos. Até que o Artur Jorge vai buscar o Preud’homme e diz-me que ele seria o guarda-redes principal. Eu não queria ficar a marcar passo e houve problemas no Benfica na minha saída. Obrigaram-me a assinar uma espécie de documento de como eu não iria para o Sporting, que estava interessado em mim. O Dr. Pimenta Machado volta a ligar-me, voltei, joguei mais três ou quatro anos e terminei a minha carreira. Eu nunca pensei na minha reconversão, nunca me passou pela cabeça de que eu iria ser diretor desportivo do Vitória.

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Nunca fez o plano.

Nunca. Nunca tive essa ambição.

Você passou por vários momentos e direções do Vitória.

É verdade. Eu vejo no atual presidente um homem sabedor, que vem da política e pega no Vitória num momento muito muito mau, vi o caso mesmo muito mal parado. É possível os clubes morrerem, como aconteceu com o Estrela da Amadora, o Farense. De uma forma racional e serena, sem grandes alaridos, fez transformações de que poucas pessoas se aperceberam. O Vitória está a caminhar de forma segura. Já dá para respirar de alívio.

“Qualquer pessoa que joga no Vitória pode jogar em qualquer equipa do mundo”

Neno

Qual foi a maior alegria que o Vitória lhe deu?

A Taça de Portugal e a Supertaça. Essas duas vitórias materiais, fazem parte do espólio do Vitória, mas mais do que isso são as pessoas, a moldura humana. Como por exemplo no jogo desta época em casa com a Académica, em que o Vitória jogou com nove jogadores contra 11 e o empate a um golo soube a um grande triunfo, muito graças ao apoio do público. Só quem estava cá é que entende o momento. É como se estivéssemos a ser atacados por 100 pessoas e nós somos 10 e por qualquer força estranha obrigamos os 100 a retirar. O Vitória tem esses dois troféus, é certo, mas é mais do que isso. É a alegria das pessoas, a romaria quando vamos jogar fora, eles estão lá sempre. E garanto: Qualquer pessoa que joga no Vitória pode jogar em qualquer equipa do mundo. Só quem está aqui e vive é que consegue entender porque é impossível descrever. Os jogadores que ganharam a Taça não conseguem verbalizar o que lhes aconteceu. Foi muito forte e é muito forte.

E não vê isto em mais lado nenhum.

Não. Mas não queiram ver o lado mau de um homem bom. Quando há paixão acontece isto. Amor e ódio. A linha é ténue. É o que os outros clubes gostavam de ter e fazem de tudo, investem muito no marketing para trazer o público, envolvê-lo. Nós vamos às escolas, nós temos que estar sempre próximos dos adeptos, da cidade, o Vitória é um modo de vida. Tudo isso faz com que seja diferente dos outros.

Como transmitem isso aos jogadores que chegam de novo?

Temos que falar com eles porque este entusiasmo também pode assustar. Temos que trabalhar a atitude. Até podemos perder mas se toda a gente correr e fizermos tudo para ganhar, cada jogador entende este carisma. Neste momento é o Moreno, que tem o sentimento do adepto.

Sente-se um provedor do adepto?

Você não queira saber das queixas que eu levo. Não sou um homem de explodir e o adepto comum ferve em pouca água. Até na derrota penso positivo: perdemos hoje, vamos trabalhar para ganhar na próxima sexta-feira. Nunca perder a cabeça.


Entrevista de Catarina Castro Abreu, publicada na edição de fevereiro de 2016 da revista Mais Guimarães.

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