NÓDOAS DA DEMOCRACIA E VESPAS ASIÁTICAS

Por Carlos Guimarães.

Escrevi recentemente que quando expomos e disseminamos as cores e texturas do nosso pensamento ficamos mais vulneráveis e somos imediatamente julgados. Mergulhamos num caldeirão de culpa e inocência, de bem e de mal, de ódio e amor. A vida, as pessoas e o mundo mostram muitas vezes que uma mentira convicta tem mais poder do que a singela verdade. Todos acham que não deveria ser assim, mas todos consideram que assim é. Sempre defendi que a essência do homem não sofre mudanças radicais, quando achamos que as pessoas mudam muito, na verdade estão num processo adaptativo mais ou menos vertiginoso, mas a sua essência será sempre a mesma. Uma nódoa será sempre nódoa e um pavão nunca irá além de pavão. Um invertebrado nunca será um líder.

Um verdadeiro líder não nasce líder, nasce nu, como todos nós. Um líder tem de se construir com o tempo e a liderança talvez seja o espelho mais transparente da inteligência humana se entendermos o homem em toda a sua amplitude social. Partiram e partem mais líderes do que aqueles que emergem e se afirmam. Vemos anedotas hilariantes vestidas com a pele de líder, uma pele que não nasceu com eles, que não foi cultivada pelos próprios, mas que foi investida pelos outros, muitas vezes pelo povo na sua mais profunda manifestação do poder democrático. Preocupa.

A liderança não tem uma receita bem definida e os ingredientes têm de ser doseados e apurados consoante as circunstâncias. O líder tem de saber misturar pitadas de chicote com momentos de colo. Se usa demasiado chicote é prepotente e ditador, se não sabe dar colo é cego e insensível. Entre o colo e o chicote deve estar o espaço imenso em que o líder é notado sem ter de se exibir. Podemos constatar que as democracias vão exercendo uma angustiante missão de empoleirar falsos líderes, criaturas que desconhecem os ingredientes básicos da liderança e se vestem de uma incultura constrangedora com ideais necróticos que querem ressuscitar. São as ditas mentiras convictas com poder de verdade absoluta, são fraudes atribuladas que traduzem apostas vencedoras de uma sociedade desvairada. Há mensagens do passado que não podem ser ignoradas, há imagens do passado que não queremos voltar a ver. Preocupa.

Termino com a notícia da semana. Foi identificado e destruído o primeiro ninho de vespas asiáticas em Lisboa. O insólito e perturbador acontecimento teve honras de notícia televisiva em todos os canais, repetida várias vezes, em horário nobre. Parece que o país começa e acaba na capital. Fizeram-se diretos a partir do local com entrevistas a testemunhas e a personalidades implicadas no êxito da operação. No “teatro das operações” tudo decorreu como planeado e com a celeridade exigida, por isso o governo não teve de reunir de emergência, nem definir serviços mínimos ou fazer requisição civil. Infelizmente não ouvimos a opinião das vespas nem da sua rainha que à hora dos diretos já tinham sido exterminadas. Provavelmente será emitida uma reportagem sobre a epopeia da viagem territorial das vespas, a construção do ninho e as exéquias fúnebres. Ficamos aguardar.

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