NOVAIS DE CARVALHO: VIVO COM OS OUTROS E ATENTO AOS PROBLEMAS DOS OUTROS”

A exercer medicina há cerca de 40 anos, vive dedicado a servir e ajudar os outros. conta com cerca de dois mil utentes no centro de saúde onde trabalha e garante que a proximidade é um fator importante na relação que mantém com cada um deles. Vive a sua vida dedicado a servir os outros, todos os dias. nunca se imaginou a fazer outra coisa na vida que não a medicina e considera que a mesma o ajuda a estar próximo dos outros e, sobretudo, a conseguir ajudá-los.

Tem um percurso profissional ligado à medicina. Quando percebeu que era o que queria para si?

Desde pequeno que pensava sempre em ser médico. Depois, quando iniciei o liceu, em que tinha de optar por ciências ou letras, segui pelas ciências e acabei por entrar na Faculdade de Medicina do Porto. Era o que eu gostava, foi sempre a perspetiva que tive, desde miúdo. E a ideia persistiu e lutei por isso. Acabei o curso em 1978 e, em 1979, comecei a trabalhar cá em Guimarães, ao fim de seis anos de curso.

Porque a área da clínica geral?

Foi opção. Eu sempre achei que a área de medicina familiar tem um componente mais completo, temos uma vivência mais alargada do que é a pessoa e a sua família. Orientei por aí a minha carreira e hoje a Medicina Geral e Familiar é uma especialidade da Ordem dos Médicos, tal como qualquer outra. Achei que assim é dada uma perspetiva mais alargada, mas também uma proximidade maior. Quando comecei a trabalhar foi logo cá em Guimarães, fiquei na Extensão de Saúde das Hortas, que agora foi mudado para onde é atualmente a Amorosa, porque o prédio na altura estava muito deteriorado. Foi um processo que teve a ver com os profissionais que lá estavam, que tiveram uma atitude pró-ativa no sentido de criarem melhores condições e foi colocada a questão ao diretor do Centro de Saúde, que assumiu isso connosco. Encontramos a solução, que seria a Amorosa, e trabalhamos temporariamente num edifício que era de uma clínica.

Tem doentes que segue desde o início?

Sim, tenho. Tenho doentes comigo já há 40 anos. E tenho já gerações, de acompanhar avós, pais e netos. Eu criei uma ligação muito forte aos meus utentes e digamos que nestes 40 anos os meus utentes são a minha vida. Eu dedico-me a eles e procuro manter-me sempre disponível. Uma parte substancial deles o meu contacto pessoal para qualquer dúvida. Mesmo em férias, nunca desligo o meu telemóvel. Onde quer que esteja, atendo e procuro ajudar dentro do possível. Procuro criar uma proximidade porque acho que o médico de família deve estar próximo. Por vezes há situações, preocupações, que um telefonema já resolve. Isso para mim é uma honra, é uma forma de servir.

Como é que olha para o Serviço Nacional de Saúde?

Eu acho que o Serviço Nacional de Saúde português é o melhor do mundo. Tem os seus problemas, carece de ajustamentos, mas por princípio acho que é o melhor e que todos nós o devemos estimar. Muitas vezes nem tudo corre como pretendemos, mas são problemas circunstanciais, que acabam por ter soluções. Nós, aqui no nosso Centro de Saúde, temos todos os utentes com médico de família, foi um esforço que fizemos. E hoje falamos não só em médico de família, mas também enfermeiro de família e também o secretário clínico, que está de algum modo ligado a determinada família. Hoje em dia, a função a que se chamava administrativo já é um secretário clínico, já tem outras funções. É um caminho que se vem fazendo. Neste momento já falamos em equipa de família. E isto depois pode ser alargado ao psicólogo, ao nutricionista…um conjunto de profissionais que se reúnem à volta do utente. Vejo o nosso Serviço Nacional de Saúde, apesar de tudo o que está a atravessar, com esperança. Da parte dos profissionais é preciso fazer tudo o que podem para que funcione e, da parte dos utentes, é preciso colaborarem, sobretudo do ponto de vista do apoio construtivo. Hoje em dia há possibilidade de as pessoas colocarem as suas sugestões e opiniões e isso vale e é ouvido. São recebidas com espírito positivo, para se melhorar. Essa interface é fundamental.

Para além da clínica geral, esteve também ligado à medicina no desporto. Como carateriza essa experiência?

Quando me formei, logo no início, fui convidado para ser médico do Vitória e comecei por trabalhar com as camadas jovens. Depois fui médico auxiliar dos seniores, depois foi médico dos seniores e ainda fui responsável do departamento clínico. Eu estive no Vitória desde 1980/1981 até 2000/2001. Nesse contexto, tive de orientar também a minha formação nessa área, fiz mestrado em Medicina Desportiva, na Faculdade de Medicina do Porto, e fiz especialidade em Medicina Desportiva na Ordem dos Médicos. Depois, tive ainda uns dois, três anos no Boavista. Eles precisavam de ajuda e eu fui. Gostei da experiência, é uma área muito específica. Deu para aferir como se trabalhava no Vitória e noutro clube. Enriqueceu a minha experiência e fiquei contente porque percebi que se trabalhava bem no Vitória.

Entretanto está no Centro Médico Desportivo de Guimarães.

Foi criado cá em Guimarães o Centro Médico Desportivo, que, entretanto, evoluiu para um ramo do Centro de Medicina Desportiva. Neste momento há, a nível nacional, um só Centro de Medicina Desportiva, que tem sede em Lisboa e uma delegação no Porto, e depois estamos nós. Foi um serviço criado pela Câmara Municipal, funciona na Pista Gémeos Castro e tem sido uma experiência excelente porque permite que todos os jovens, quer estejam integrados em clubes ou não, podem lá ir fazer o seu exame, a sua avaliação e deste modo percebe-se se a pessoa pode fazer normalmente exercício ou não. Toda a gente pode praticar desporto, se não for um é outro. E este Centro foi criado com essa intenção, de acompanhar e orientar.

Há uma mais-valia para os atletas ao fazem aí os seus exames? É diferente de os fazer recorrendo ao Centro de Saúde?

Os atletas que vão lá sabem que vão a um serviço com mais vocação para a área desportiva. É um serviço que tem especialistas em medicina desportiva, tem cardiologistas, pneumologistas, fisiatras, ortopedistas… há um acompanhamento mais específico, mais vocacionado. Muitos médicos de família fazem esses exames sem problemas, mas outros preferem canalizar para lá. E depois temos exames especiais, que tem de ser homologado pelo Centro de Medicina Desportiva.

“Foi muito importante o trabalho de grupo, porque foram 20 anos de muito esforço”

 

A par de tudo isto, já foi também Juiz da Irmandade de S. Torcato. Como é que isso aconteceu?

Estive lá durante 20 anos, desde 1995. Temos de nos organizar de modo a conseguir conciliar tudo e acabou por ser um imperativo assumir essa função. Havia alguns problemas e decidimos, com um grupo, candidatar-nos. E foi muito importante esse trabalho de grupo, porque foram 20 anos de muito esforço. Primeiro tivemos de reorganizar a instituição, que tinha vários problemas, tivemos de melhorar internamente, nas mais diversas áreas, tentamos concluir as obras do Santuário, para as quais contamos com uma parceria com a Universidade do Minho. Uma das nossas preocupações era entrar na área social e então criamos o Centro Social da Irmandade de S. Torcato. Neste momento tem um lar para idosos, com lar, centro de dia e apoio domiciliário, teve cantina social e tem um banco de apoio social, que é dedicado a apoiar famílias com dificuldades: é avaliada a necessidade da família, em géneros, vestuário e ajudamos. Não se dá dinheiro. Funciona só com voluntários e tem uma perspetiva comunitária, onde se integra várias associações locais que também estão no terreno. Tudo isto lançou a Irmandade junto da sociedade. Neste momento sou presidente da Assembleia Geral. Quando chegamos a 2015 percebemos que o programa a que nos tínhamos proposto estava realizado.

E sente que esta Irmandade é importante para as pessoas da vila?

Muito importante. A Irmandade pretende sempre colaborar com todas as instituições e associações da vila porque a vila vive delas e, com todas a trabalhar em conjunto, funciona

melhor. É um trabalho que é feito com esperança que tudo corra bem.

Tem um conhecimento alargado de Guimarães. Como define os vimaranenses?

Os vimaranenses são um povo excelente, capaz de fazer o impossível. Acho que nos últimos anos Guimarães cresceu de forma exponencial, positivamente, e isso tem a ver com todos. Naturalmente que há instituições que conduzem, mas também as pessoas ajudam. Guimarães é uma cidade generosa, recebe muito bem e as pessoas quando cá vem sentem-se bem e fazem questão de frisar isso. É um povo com muita força e generoso, solidário e que, em conjunto, consegue dar uma vida excelente à cidade. Vive-se um período excelente.

O que o apaixona para além da medicina?

Eu sinto-me próximo das pessoas. E sinto isso através da minha atividade. Eu vivo essencialmente para isso. Tenho cerca de dois mil utentes no Centro da Saúde. Atualmente sou também presidente clínico do ACES Alto Ave, que engloba seis centros de saúde (Guimarães, Taipas, Vizela, Fafe, Cabeceiras de Basto e Mondim de Basto). Há uma forte ligação entre o ser médico de família e a minha atividade enquanto dedicado à causa social. Vivo com os outros e atento aos problemas dos outros. A minha vida tem sido isso e não me passa pela cabeça parar.

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