O dilema

Por César Teixeira.

O mundo é um lugar cada vez mais perigoso. E a causa não é o surto de Covid 19. Que, para além e evidenciar as nossas fragilidades, tornou visíveis ao nível internacional sintomas que há muito estavam latentes. Quem diria! Em 1989, com a queda do Muro de Berlim, tudo nos levava a pensar que iríamos trilhar um caminho de paz, harmonia e de desenvolvimento. A coberto de uma ordem internacional fundada no respeito dos Direitos Humanos e nos princípios do Estado de Direito Democrático.

O mundo está mais intolerante e, não por acaso, com os olhos cada vez mais em bico. Os discursos políticos inflamam e assumem caráter absoluto. Ditam-se sentenças. Foge-se dos argumentos. Os discursos tendem para a inflexibilidade. Dificultam a construção de pontes. Seja porque a imagem de intransigência que se cultiva não é compatível com tal eventualidade. Seja pelo facto de, entretanto, terem sido cavadas trincheiras demasiado profundas. No exercício de poderes públicos é necessário construirmos pontes e não fortalezas. As fortalezas até nos podem dar a sensação momentânea de poder. Mas, na verdade, é uma sensação enganadora. No passado, foram as pontes que permitiram construir laços, unir margens e ilhas desavindas e reforçar quem detinha o poder.

O respeito institucional que era apanágio de quem exercia a causa pública começa a fraquejar. Ainda recentemente pudemos assistir a fenómenos desta natureza em Guimarães. A propósito de um vídeo promocional lançado por uma associação de comércio local e de uma intervenção política levada a cabo pelo maior partido da oposição local. Na sequência de uma intervenção partidária, assistimos a uma reação incompreensível à luz dos princípios da sã convivência institucional. Reação que apenas se explica como sendo um sintoma desta nada admirável nova ordem. Podemos discordar. Melhor, deveremos discordar! Mas deveremos fazê-lo sempre com respeito e cuidado. De forma a que estejam abertas as portas do comércio, como também as portas do relacionamento institucional. Atacar o mensageiro ao nível pessoal, e não a mensagem, não é aconselhável e não abona em favor de quem procede dessa.

A força dos argumentos capitula perante fenómenos de violência cada vez mais frequentes. Num retrocesso civilizacional que, apesar de momentaneamente não o parecer, acaba invariavelmente por prejudicar os mais fracos. A nossa Civilização cresceu fugindo da lei do mais forte. A nossa civilização baseou-se, e depois desenvolveu-se, em princípios cada vez menos naturais e essencialmente sociais. Hoje assistimos a fenómenos de violência persistente e instalada. Do desporto à política. Em que, por exemplo, fenómenos de manifesta violência policial e abuso de autoridade (nos EUA), deram lugar a outros fenómenos de violência de sentido oposto. Violência gratuita, sem sentido. Que, no nosso País, culminaram com a exibição de panfletos com expressões pouco recomendáveis, em manifestações estranhamente autorizadas em pleno estado de calamidade pública.

Hoje a liberdade de expressão cede perante verdadeiros tsunamis que se geram nas redes sociais. A propósito de um qualquer tema, esmaga-se quem ousa pensar diferente. Ganha quem berra mais alto. Quem consegue criar uma onda e a consegue transformar num tsunami. Os tsunamis geram ondas de devastação. Destroem tudo por onde passa. Mas nada constroem. Finda a histeria momentânea, tal como a água recolhe ao mar findo o tsunami, as vozes que berravam nas redes sociais e na comunicação social desaparecem. Esquecem que, tal como os tsunamis, desse efeito destrutivo pouco ficou. E de onda em onda, vamos destruindo o que nos custou 2 mil anos a construir. Sem que nada se perceba que esteja a ser erigido.

Tal como no fundo do oceano, também na política abundam políticos de plástico. Que cultivam o continente, mas não o conteúdo. Que espremidos são um vazio total. Que não exibem qualquer estratégia. Sem linhas de pensamento estruturadas e sistematizadas. Que pessoalizam os debates em torno de si e não do seu pensamento. Retirando proveitos momentâneos dessa exibição, mas esquecendo que, mais cedo que tarde, essa exibição acabará por virar-se contra si. E nessa altura já será tarde para mudar. O mal já está feito. Onde houver culto da personalidade que se leve o culto das ideias. Onde houver o ataque pessoal se leve o ataque ideológico.

Mas não resulte a ideia de que, com este texto, se faz a apologia do politicamente correto. Longe disso. Defende-se um combate em torno de ideias. Que acabe o plástico na política. Que as redes sociais sejam centros de debate e não de combate. Que o respeito pela opinião faça escola. Mas para isso aconteça é imperioso que os partidos e associações consigam ser a mola que absorva a força, impulsione o sentir da população e o institucionalize. Mas, para isso, os partidos têm de tomar partido. Assumir posições claras e diversas ao nível do pensamento e não do método e dos protagonistas.

Tenho sido muito critico do atual panorama político nacional. Com a falta de alternativas de um centrão. Vazio de ideias e de conteúdo. Corroído por fenómenos mais ou menos latentes de corrupção. Suportado no rotativismo de cargos, pessoas e lugares. Mas com uma cada vez menor ligação à realidade, que vai seguindo cada vez menos institucionalizada. Um verdadeiro dilema.

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