O MUNDO DE SOPHIA

Por Eliseu Sampaio.

No dia em que esta edição fica disponível para os nossos leitores, 06 de novembro, Sophia de Mello Breyner Andersen, uma das vozes mais nobres da poesia portuguesa, completaria 100 anos.

O talento da autora, nascida na cidade do Porto em 1919, era gigantesco e unanimemente reconhecido. É de inteira justiça que o seu riquíssimo legado seja dignamente lembrado. Sophia foi uma das maiores embaixadoras da língua portuguesa, engrandecendo-a com versos e histórias maravilhosas como a que lembro no recorte abaixo. Não esquecerei aquela voz pausada no “Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar…” que antecipava o absoluto silêncio para apreciarmos a “Menina do Mar”, encenada pelo Filipe La Féria. Foram horas e horas em frente ao televisor, maravilhados com as descrições cristalinas de Sophia, dos espaços e sentimentos.

Bom dia – disse o rapaz. E ajoelhou-se na água, em frente da Menina do Mar.
Trago-te aqui uma flor da terra – disse; chama-se uma rosa.
E linda, é linda – disse a Menina do Mar, dando palmas de alegria e correndo e saltando em roda da rosa.
Respira o seu cheiro para veres como é perfumada.
A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente. Depois levantou a cabeça e disse suspirando:
É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
Isso é por causa da saudade – disse o rapaz.
Mas o que é a saudade? – perguntou a Menina do Mar.
A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.
Ai! – suspirou a Menina do Mar olhando para a Terra. Por que é que me mostraste a rosa? Agora estou com vontade de chorar.
O rapaz atirou fora a rosa e disse: – Esquece-te da rosa e vamos brincar.

Entendamos, por sob a música dos seus versos, um apelo generoso, uma comunhão humana, um calor de vida, uma franqueza rude no amor, um clamor irredutível de liberdade.” (Jorge de Sena, “Alguns Poetas de 1938” in Colóquio : Revista de Artes e Letras, nº 1, Janeiro de 1959

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