O PARADOXO DA PERCEÇÃO

por Paulo Novais,

Professor de Inteligência Artificial

Vivemos tempos em a perceção ganhou uma importância redobrada, tempos em que o velho ditado “à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”, deixou de ter o mesmo sentido lato porque agora o “ser” já não é sequer tido em conta na equação, basta “parecer”. A perceção e (muitas vezes) a leveza do parecer são suficientes.

A perceção é, genericamente, definida como o ato ou efeito de perceber. É uma tomada de conhecimento dos objetos e/ou dos acontecimentos que nos rodeiam, alicerçada nas informações que os nossos sentidos nos transmitem e nas nossas experiências passadas. Em particular na psicologia, confere-se à análise da perceção uma grande relevância, na medida em que o nosso comportamento é fortemente sustentado na interpretação que fazemos da realidade e não na realidade de facto. Dessa forma, a perceção que fazemos do mundo é (naturalmente) diferente para cada um de nós. Cada individuo (singular) perceciona e, consequentemente entende de modo diferente porque está alicerçado na sua singularidade. Na filosofia sustenta-se, que “a realidade vai apenas até o limite da perceção humana” i.e., está limitada pela nossa capacidade de percecionar o mundo.

Podemos tipificar os fatores que influenciam a perceção em dois grandes grupos: os que estão ligados ao ambiente em que nos situamos e os associados ao que nos torna únicos (ao nosso ser), como por exemplo as nossas experiências. Dois exemplos paradigmáticos, dois sujeitos, um frente ao outro, a observarem um número, em que um perceciona um nove (9) e outro um seis (6), neste caso as circunstâncias (localização) de cada um condicionam a sua perceção. Num outro exemplo, também ele clássico, baseado no princípio da figura e do fundo em que observamos um vaso ou duas faces que se observam reciprocamente, nesta caso a atenção e importância que damos determina o que julgamos ser a figura e o que é fundo.

Uma outra perspetiva sobre perceção está relacionado com a evolução do conhecimento que é, naturalmente, dinâmico, basta para tal observar, como exemplo paradigmático, a evolução histórica dos limites do mundo tal e qual o conhecemos.

Há alguns anos, assisti a uma palestra do Prof. Carvalho Rodrigues onde apresentava um diapositivo com um fundo preto e uma pequena bola branca no meio, em que ele questionava a audiência sobre o que viam. As respostas iam, maioritariamente, para a identificação da pequena bola branca. De algum modo este comportamento reflete uma tendência generalizada, na nossa sociedade, para nos focarmos no “foguetório” dos medias i.e., naquilo que são os pequenos episódios mas que têm associado a eles muito ruído e pouco conteúdo.

Esta realidade é, hoje, frequentemente utilizada para nos distrair e nos influenciar. Basta estar atento e observar o bombardeamento, constante e sistemático, de notícias que circulam nas redes socias e nos meios de comunicação que pretendem nos dar ilusão de algo, de um determinado propósito. Quantas vezes, a perceção é invocada para nos focarmos na espuma de um cabeçalho de uma notícia (sem conteúdo) que descreve um episódio e com isso perder a perspetiva do todo. Repetir, até a exaustão, provoca, a quem observa com ligeireza, a perceção que algo está a acontecer.

Mas não é por existirem muitas pequenas bolas (sabe-se lá porquê) que o fundo deixa de ser preto e neste caso de representar a real “realidade” que deveríamos percecionar.

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