O QUERIDO MÊS DE AGOSTO EM GUIMARÃES

por ANTÓNIO ROCHA E COSTA
Analista Clínico

Longe vão os tempos em que, terminadas as Festas Gualterianas, Guimarães ficava à mercê dos poucos citadinos que não partiam para férias e dos emigrantes que todos os anos regressavam às origens. Hoje em dia tudo é diferente, e eu que o diga, pois pensava passar um Agosto tranquilo e de repente dei comigo num inferno. Desde já porque, exercendo a minha actividade profissional na rua Dr. José Sampaio, próximo do Parque das Hortas, deparei-me de um dia para o outro, com a rua cercada por uma vedação em arame e completamente esventrada. De notar que esta mesma rua foi intervencionada há cerca de ano e meio, tendo as obras nessa altura demorado largos meses, com todos os inconvenientes para os moradores e para aqueles que aí têm os seus negócios e as suas actividades. Mas que importância tem isso? – dirão as luminárias que elegemos de quatro em quatro anos e que se julgam donos absolutos do espaço citadino, nutrindo um completo desprezo pelos cidadãos e pelos dinheiros públicos. Dirão ainda que é para nosso bem e que tudo ficará mais bonito e asseado e tal e coisa, mas já há ano e meio, aquando da primeira intervenção, o discurso era o mesmo. Será incompetência ou vontade de desperdiçar o dinheiro dos contribuintes? E já agora, porque é que não esclarecem os munícipes sobre a necessidade desta segunda intervenção que ninguém entende?

A certa altura, senti necessidade de deixar esta rua fantasma e em estado de sítio e refugiar-me no Centro Histórico, fruindo o espaço das esplanadas beijadas pela brisa do fim de tarde. Tentativa vã, pois o Centro Histórico, por estes dias, foi completamente invadido por hordas de turistas, deambulando pela cidade de telemóvel ou máquina fotográfica em punho, fotografando tudo quanto é pedra ou fontanário e ocupando literalmente as esplanadas e os restaurantes.

Pode ser que à noite seja melhor – pensei eu. Mas qual quê? Quando finalmente consegui lugar, juntamente com uns amigos, numa esplanada do Largo da Oliveira, preparando-me para uma conversa amena, temperada por uma bebida refrescante, eis que as luzes se apagam e começa a sessão de cinema. É para o bem de todos – dizem. A populaça tem que ser instruída e se Maomé não vai à montanha, vem a montanha a Maomé.

Se as obras são para o nosso bem e o cinema é para o nosso bem, então porque é que protestamos, nós cidadãos ingratos? (interrogo-me eu).

De repente, vem-me à memória aquela história passada na antiga União Soviética, em que dois pioneiros (o equivalente aos nossos escuteiros) procuravam praticar a boa acção do dia, ajudando uma velhinha a atravessar a rua e a velhinha a espernear e a barafustar. Eis que passa alguém e pergunta o que estão a fazer à velhinha e eles respondem: estamos a ajudá-la a atravessar a rua e esse alguém volta a perguntar porque é que a velhinha reage assim, se é para bem dela, e os pioneiros respondem: É que ela não queria atravessar a rua…

Efectivamente, um Agosto assim é para esquecer e prometo que ninguém me apanhará em Guimarães durante este mês do Ano, em que os responsáveis desertam e deixam a cidade entregue à bicharada.

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