Paulo Lopes Silva: “Em 2012, o objetivo foi fazer de Guimarães uma cidade de criação”

O atual vereador da cultura e do turismo, Paulo Lopes Silva, faz um balanço do período que passou entre 2012 e 2022. “Aproveitamos este ano para pararmos, pensar o que aconteceu, o que fizemos e para onde queremos ir”, confessa à Mais Guimarães.

© Direitos Reservados

Que balanço é que é possível fazer-se destes 10 anos que passaram após a Capital Europeia da Cultura?

Acho que este é um período de transformação contínua. Essencialmente, seria assim que eu designaria este período entre 2012 e 2022. Há um período inicial, naturalmente, em que se sentiu o chamado efeito da ressaca da festa. Tivemos um ano absolutamente extraordinário do ponto de vista da atividade cultural, um nível de atividade cultural muito superior àquilo que é a realidade portuguesa até, não é uma questão apenas de Guimarães é uma questão mesmo nacional. Atividade permanente, regular, com grande intensidade, com grande nível de investimento que não há a capacidade de o manter com essa regularidade. Julgo que os primeiros anos, ou primeiros meses, a seguir à Capital, que isso se fez sentir. Ainda numa primeira fase, em 2013, com algumas concretizações que se seguiram a 2012 em resultado da mesma. Essa ressaca foi naturalmente contrariada com uma atividade permanente e regular desde logo d’A Oficina, da cooperativa cultural do município, que manteve a sua atividade e também reforçou e por outras vias que estavam assentes naquela que era a perspetiva de mudança que 2012 traria.

“O grande objetivo é sairmos de 2022 com um plano estratégico para a cultura em Guimarães”

Paulo Lopes da Silva

2012 acaba por ser momento de viragem da página das prioridades do ponto de vista das políticas culturais em Guimarães. Tivemos largos anos de investimento em criação de práticas, em criação de hábitos culturais, na regularidade da atividade, na criação de públicos e, de 2012 para a frente, a transformação que se pretendeu operar em Guimarães foi a transformação de Guimarães enquanto cidade que consome cultura com uma Guimarães numa cidade que cria cultura e de forma agentes culturais. Na realidade, isso tem-se sentido nas mais diversas formas e acho que hoje nós temos uma atividade permanente e regular no município que resulta não só da atividade do município, d’A Oficina, ou das associações do ponto de vista mais clássico, mas também de criadores, de agentes locais, de entidades independentes que programam no território, entidades que criam a partir de Guimarães, as vimaranenses e aquelas que, em cocriação, vão criando também a partir desse território. Acho que há elementos muito exemplificativos daquilo que foi essa transformação. Nós sabemos, por exemplo, à data de hoje, o número de agentes que existem nas áreas mais técnicas, por exemplo, da concretização ou os próprios criadores que estão neste momento nas mais diversas áreas, na música, nas artes visuais, artes plásticas, nas artes performativas, percebemos que temos uma densidade de setor cultural e criativo em Guimarães muito superior ao que tínhamos no pré 2012. Isso vai-se traduzindo, também, na exigência. Portanto, na cidade temos novas respostas, como foi o gangue de Guimarães das artes performativas, as oficinas de teatro, o PACT, no caso mais do município, o Impacta e a transformação que isso veio operar no território ou dar ferramentas para que os criadores e as associações culturais pudessem ter esses instrumentos para criarem a partir de Guimarães, para programar em Guimarães. Naturalmente, toda esta transformação se faz hoje sentir com grande nível de exigência, mas também com um nível de resposta a estas, por exemplo, às OpenCalls que município vai lançando, que mostra bem a vitalidade do setor criativo.

Recordar também um aspeto complementar a este. Quando se falava em transformação de uma cidade que criava, não se falava só no setor cultural stricto sensu. Não estamos a falar apenas da criação artística. Falávamos também na tradução da criatividade para outros setores da economia. Recordo que em 2019, nos últimos anos, ficamos a saber, com o Observatório que a Comissão Europeia tem de forma regular das cidades criativas e culturais, que Guimarães estava no topo das cidades das suas dimensões dos empregos criados na área criativa. Isto resulta do caminho pré 2012, da transformação que se operou em 2012 e naquilo que nós percorremos ao longo dos últimos anos e naturalmente que essa criatividade se faz sentir nas mais diversas áreas de atuação da vida, do quotidiano social e económico da região.

Em 2012 o envolvimento da comunidade foi um fator preponderante para o sucesso da Capital Europeia da Cultura. Esse envolvimento, ainda o sentem passados 10 anos?

© Cláudia Crespo / Mais Guimarães

Absolutamente. Naturalmente que à escala de 2012 nunca sentiremos nada, nem a vitalidade, nem o envolvimento das pessoas. Mas a verdade é que esta resposta que temos cada vez que lançamos o desafio a que a comunidade responda, continua a sentir-se. Lembrar, por exemplo, que do ponto de vista do envolvimento, o nosso Banco Local de Voluntariado continua a prestar apoio a estas atividades. Nos últimos dois anos, com a pandemia, não sentimos tanto, mas a área do voluntariado da Feira Afonsina é uma das áreas mais fortes, há muita gente com vontade de fazer parte, de integrar o projeto, de se envolver nas mais diversas áreas do mesmo. Isto continua a fazer sentido, as pessoas continuam a ter esta vontade de participar. Lembrar um aspeto que me parece também muito importante.

O projeto que continua a existir com mais intensidade no pós 2012, é precisamente A Outra Voz, o coro de comunidade criado no âmbito da Capital Europeia da Cultura que continua a trabalhar no território e a apresentar anualmente as suas criações. É, naturalmente, mais do que um coro, nós chamamos-lhe um coro de comunidade, mas é hoje uma estrutura de criação com a comunidade que existe neste território e com grande vitalidade.

Como é que Guimarães vai celebrar a passagem do décimo aniversário de um momento tão relevante para este território?

É um ano em que nós, mais do que na festa, nos vamos concentrar na reflexão e no caminho para onde queremos ir. Fizemos um percurso de cerca de 20 anos até chegarmos a 2012. Em 2012, designamos este objetivo de fazer de Guimarães uma cidade de criação. Percorremos esse caminho ao longo dos últimos 10 anos, temos ainda aspetos a concluir que queremos concluir durante este ano, por exemplo, com o lançamento do Balcão de Apoio à Criação, que permitirá compilar todos aqueles que são os instrumentos e os mecanismos de apoio ao município e dotá-los de maior capacitação dos agentes do território através do envolvimento dos profissionais da Câmara e d’A Oficina no acompanhamento a estes projetos. Consolida aqui o desenvolvimento que fizemos com o Bairro C, com o Impacta, com os apoios à criação ao longo dos últimos anos.

Aproveitamos este ano para pararmos, para pensar o que aconteceu, o que fizemos e para onde queremos ir. Naturalmente, ao longo deste ano, o grande objetivo é sairmos de 2022, 10 anos depois da Capital Europeia da Cultura, com um plano estratégico para a cultura em Guimarães, um documento forte, consolidado, discutido como o território, que possa apontar caminhos do futuro por onde Guimarães pode e deve continuar a caminhar para continuar, no contexto nacional e internacional, a ser um exemplo em termos de políticas culturais.

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Sendo o novo vereador da Câmara Municipal de Guimarães com responsabilidade nesta área da cultura e também no turismo, Guimarães vai continuar a ser uma cidade cultural e uma cidade que recebe bem quem a visita?

Não tenho dúvidas nenhumas disso. Guimarães fez, paralelamente a este percurso da criação ligado às artes também, dois percursos em paralelo, um de preservação patrimonial e este da criação de públicos e da criação artística a partir de Guimarães. Isso ainda hoje nos vale o facto de sermos Património da Humanidade e termos de capital Europeia da Cultura. Estes dois desígnios não pararam. Nós queremos aumentar a área classificada Património da Humanidade e queremos complementar este caminho da criação a partir de Guimarães desde logo, por exemplo, com a abertura do teatro Jordão ainda durante este ano, que consolida este projeto do ponto de vista da sustentabilidade da criação a partir de Guimarães, como uma escola de artes performativas, uma escola de música e uma escola de artes visuais a funcionar na antiga sala de espetáculos. Não tenho dúvidas que estes dois caminhos não se ficaram pelo ano em que obtivemos as classificações, mas é algo que é consolidado a cada ano e que é desenvolvido a cada momento. Isto significa também que quem visita Portugal, quem visita esta região tem um olhar e uma atenção especial para com Guimarães. Isto faz-nos estar numa rede que é muito importante em termos turísticos, também, e, depois, que a nossa forma de saber receber a forma como a comunidade se envolve, como gostamos de Guimarães, como mostramos os nossos espaços a quem nos visita, a garra vimaranense, esta forma de sentirmos esta vitalidade do nosso território e a traduzirmos quando falamos sobre ele, continuará a fazer sentido e oxalá que a pandemia nos permita continuar a retomar o caminho de crescimento constante que vínhamos tendo até 2019.

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