PODRES QUE SE MOSTRAM NA PROXIMIDADE DO CAOS

Por Carlos Guimarães

Todos sabemos que 9 anos 4 meses e 2 dias são uma miragem e quando o calendário os integrar a Rainha de Inglaterra terá muito mais de um século de vida.

Se de repente mais de cem mil professores iniciassem uma greve por tempo indeterminado estaríamos longe de um cenário caótico nacional ao fim de três dias e a angústia dos portugueses ao terceiro dia seria próximo do zero. Ao mesmo tempo, os compromissos financeiros de muitos grevistas com a perda de três dias de vencimento já estariam ameaçados. Daqui se infere e numa conclusão liminar que uma greve desta classe por tempo prolongado se assevera de ocorrência impossível. Não há plataforma de crowdfunding que os sustente. Ou seja, se considerarmos a educação como um pilar basilar na construção da sociedade, parece que o seu impacto nessa mesma sociedade é praticamente nulo quando comparado com a importância capital dos combustíveis fósseis. Sem combustíveis não há futuro e o armaggedon mostra-se ao virar da esquina. Não me venham dizer que existem alternativas, porque afirmá-lo é insistir na mentira e a mentira é pecado! O poder de setecentos camionistas de produtos perigosos é uma espécie de bomba nuclear e a importância de dezenas de milhar de professores é comparável a um calhau arremessado por uma fisga. Parece que vivemos num mundo ao contrário, mas na verdade ele move-se na direção correta. Os donos da razão que enchem a boca de sapiência podem rodar à volta de tudo e de si próprios, podem argumentar toda a intelectualidade contra os factos, mas todos sabemos que é assim.

Todos sabemos que os podres do nosso país existem e abundam, e não são um exclusivo lusitano, mas a recente crise dos combustíveis mostrou putrefação que a maior parte dos portugueses desconheciam. Eu não sei quanto custa o transporte diário de 180 camiões de combustível entre Aveiras e o Aeroporto de Lisboa, mas a aritmética simples diz que ao fim de um ano essa distância foi percorrida 65.700 vezes num total de cerca de 3.300.000 km numa só viagem. Faltam-me dados para calcular as toneladas de emissões de dióxido de carbono e outros poluentes e sobretudo os custos que a minha singela formação não permite calcular. Acredito que ninguém fica convencido de que este comboio tenebroso é mais seguro e mais económico do que a construção de um oleoduto com cerca de 50 km de extensão. Ficamos sempre na existencial dúvida de que esta imbecilidade deve favorecer um qualquer interesse oculto e obscuro.

Todos ficamos a saber que a ogiva nuclear pode deflagrar a qualquer momento, que não existe nenhum plano de defesa nacional e que todas as soluções apontadas não impediram o seu rebentamento, apenas atrasaram a ignição. Não há dúvida que a melhor solução é evitar o lançamento do míssil e esse foi o caminho transitório que se encontrou.

Ao quarto dia, entre beijos, aplausos e abraços a coisa ficou apaziguada e por pouco não se elegeu um herói!

No meio desta algazarra toda também ficamos a saber que Lisboa e Porto são territórios sedeados no século XXI e que o resto do país vive na era pré revolução industrial e se desloca de carroça de tração animal. Mas ao que se viu as bestas que comandam as bestas de tração não ficaram lá muito incomodadas, provavelmente porque ao terceiro dia Cristo ressuscitou.

Ninguém duvida que a nossa sociedade vive pendurada por frágeis linhas de coser e qualquer movimento mais brusco as pode quebrar e arremessar-nos no abismo, mas pelo que se pode ver, afinal vivemos presos por delicados fios de cabelo.

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