PORTUGAL

Por César Machado

Portugal

Tu elegeste como desígnio principal

Fazer de Disneylandia à escala nacional,

Um presépio de ano inteiro, como no Natal,

Um amplo e arrumado alojamento local,

 

É isso não é, ó Portugal?

Estás a criar uma onda bem original

Como na Nazaré, uma onda triunfal

Mas a correr atrás de quê, ó Portugal?

É isso que queres ser -um alojamento local?

 

Já te não chega do mar o areal

Tens agora a praia fluvial

O turismo rural,

Tudo apontado à componente comercial,

É assim, esse alojamento local?

 

De que te serve o património imaterial

E as preocupações do tipo cultural?

-Um destes dias todo tu és um canal

Debruado de palmeias, uma imensa marginal,

Cheia de turistas rumo ao litoral,

 

Aí sim, serás um vulgar alojamento local!

 

Pára, pensa um pouco, Portugal

Antes que mesmo às lágrimas que chores falte o sal.

 

As palavras antecedentes foram escritas pelo autor desta crónica e correspondem à versão dita recentemente nas Danças de São Nicolau.

O que tem sucedido em Lisboa e no Porto chegou agora a Guimarães.

Muitos se levantaram já contra o que sentiram na pele cidadãos residentes e instituições que os congregam, afastados em nome deste “progressso”.

Dizem muitos dos seus habitantes que em Lisboa e no Porto começam a sentir-se muito “apertados”, com mais turistas que naturais da região, isto para os que escaparam à fúria empreendedora deste “desenvolvimento turístico” e continuam a viver no centro.

Não tem mal nenhum ouvir na rua línguas diferentes, pelo contrário. E é bom ser destino turístico procurado por estrangeiros, em busca da riqueza das nossas paisagens, da beleza das nossas cidades, dos nossos pitorescos costumes, a nossa singular comida, a hospitalidade das nossas gentes.

O problema, porém, é que um destes dias os turistas vêm visitar outros turistas, todos de passagem, com as casas antes habitadas pelos seus residentes a albergar viajantes em trânsito, os costumes diluídos numa disforme multidão despreocupada, em férias,  e os cidadãos locais, as instituições locais, aquilo de que é feita uma comunidade, a serem já uma saudade.

O que se tem passado em Lisboa e no Porto chegou agora Guimarães.

Tocou ao Convívio ser o primeiro alvo desta “fúria empreendedora”. O Convívio, Associação Cultural e Recreativa,  vem ajudado a construir Guimarães desde 1961, com uma marca cultural na cidade e região que motivou a atribuição da Medalha de Ouro do Mérito Cultural em 1997, e a atribuição do Estatuto de Utilidade Pública pela sua actividade em prol da cultura e da cidadania, pelo governo, em 2013.

 

Se o Convívio não escapou, outros casos virão a seguir, com certeza.

Presido à Direcção do Convívio, não sou neutro. A recente venda do nosso edifício sede a uma sociedade imobiliária, proprietária de um alojamento local situado em edifício contíguo, faz temer o pior para os que não acreditam no Pai Natal. Haverá neutros?

Hoje o Convívio, amanhã outra instituição cultural ou uma casa de residentes no centro histórico, trata-se de uma causa de cidadãos. Este caso representa uma causa de muitos, uma causa da cidadania. E por estas causas luta-se.

2018 foi um ano de grandes realizações para o Convívio. Em 2019 continuará a luta pela nossa casa. Mas estaremos na concretização da cultura e cidadania. Como vem sendo a nossa causa, como vem sendo a nossa casa. A todos, do coração,  um excelente 2019

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