Presidenciais pandémicas

Por Tiago Laranjeiro

Dentro de três semanas haverá eleições presidenciais. São umas eleições peculiares por diversos motivos. Desde logo, pela pandemia, que muda a natureza do modo de fazer campanha, até o próprio procedimento eleitoral no dia. Mas que também faz com que os cidadãos-comuns não se entusiasmem com uma eleição que lhes está distante. Tanto mais que o resultado parece decidido à partida…

A primeira nota é de ordem institucional. Houve uma candidatura, de Eduardo Baptista, que foi rejeitada pelo Tribunal Constitucional, por apresentar apenas 11 subscritores, dos quais apenas 6 válidos, quando precisava de um mínimo de 7500. Ainda assim, Eduardo Baptista é o primeiro nome no boletim de voto. Foi um imbróglio burocrático que levou a que assim fosse, pois o prazo para as validações e correções das candidaturas corria em simultâneo com o da preparação do ato eleitoral, o que levou a que os boletins fossem impressos antes de terminada a validação de todas as candidaturas. Mas é um sinal do peso da burocracia no nosso país, e na política em particular. E que descredibiliza ainda mais as nossas instituições.

A segunda nota, sobre a variedade de candidaturas. Serão talvez as eleições presidenciais em que há maior cobertura do espectro político, e candidatos com perfis muito diversos. Em teoria, este facto enriquece o ato, por dar mais opções aos eleitores para que se sintam verdadeiramente representados.

E… no entanto… Em mim, pelo menos, grassa a dúvida.

O presente mandato de Marcelo Rebelo de Sousa teve, a meu ver, a grande virtude de chamar à atenção para os setores mais marginalizados da sociedade, dos sem-abrigo aos idosos isolados, dos emigrantes ao interior profundo. Não é certo em que é que esta intervenção mudou o estado das coisas, mas pelo menos atraiu a atenção pública para grupos esquecidos da sociedade.

Por outro lado, o estilo banal que cultivou, com o intuito declarado de fazer “política de afetos”, caricaturado nas “selfies”. O Presidente da República a comentar a atualidade nacional em calções de banho a sair do mar. O Presidente da República a telefonar em direto a um programa de televisão. Percebo o intuito de causar uma (falsa) ideia de proximidade, mas tudo isto é perigoso para a democracia. Aproxima-se muito de outros tipos de políticas que exploram emoções, mais típicas de extremos.

E, para além disto, deu o seu apoio às políticas mais inaceitáveis do Governo. Esteve bem Tiago Mayan, esta semana, nas críticas que lhe teceu. De se guiar pela popularidade, de passar “cheques em branco” ao Governo, do “pacto de silêncio” no homicídio do SEF, à não recondução de Joana Marques Vidal na Procuradoria-Geral da República.

Mas quem sobra? Nutro simpatia por Tiago Mayan, mas noto-lhe uma inexperiência política que não desperta confiança, para além de algumas divergências políticas. Ventura está muito ao extremo, e procura capitalizar no pior das políticas das emoções, cavalgando emoções negativas dos portugueses face a outros grupos, dando corpo a monstros adormecidos. Ana Gomes tem cumprido um papel relevante na sociedade, mas para mim foi impressionante a rábula que Herman José lhe dedicou recentemente, caricaturando o pior das suas características. Já Marisa Matias e João Ferreira representam políticas com que não me revejo minimamente, assumindo com clareza a vontade de lutarem por esses valores se na presidência. Sobra Vitorino Silva? Certo é que assumiu ter deixado para trás o “Tino de Rans” e tem feito importantes interpelações ao longo da campanha…

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