Professores com a casa às costas

A vida nómada de um professor é um tema recorrente e que surge, todos os anos, por esta altura. Ninguém é colocado numa escola para a qual não tenha concorrido e, por isso, “nenhum professor está colocado numa escola que não quer”. O Algarve, Lisboa e Alentejo surgem como as zonas onde há mais vagas e, por isso, os professores no norte veem-se obrigados a mudar de vida para, um dia, a casa ficar mais perto.

© Cláudia Crespo/Mais Guimarães

Liliana Silva, professora do 3.º ciclo e secundário, está em Quarteira há três anos. São 600 quilómetros que a separam da sua cidade natal, Guimarães. “A minha primeira escola fora de Guimarães foi em Ferreira do Alentejo”, conta à Mais Guimarães. Saltou de escola em escola e passou por terras como Alcácer do Sal, Aljustrel ou Vila Real de Santo António. Já houve também situações em que, no mesmo ano letivo, passou por três escolas. O seu “pior ano”, confessa. “Primeiro período todo em Serpa. Em janeiro, trabalhei um mês na Póvoa de Varzim, uma substituição pequeníssima. Em fevereiro, entrei em Albufeira”.

Contudo, este não é um assunto recente. Maria José foi professora do primeiro ciclo e está já reformada. Apesar de ter estado em escolas “relativamente perto”, esteve também em Celorico de Basto, em Borba de Montanha, numa altura em que os transportes eram muito diferentes. A camioneta passava às 08h00, às 13h00 e às 18h00 e ficava a meia hora a pé da escola. Por este motivo, Maria José ficou a viver num sítio desconhecido até então. A escola, conta, era por cima de uma corte de animais, não tinha carteiras para todos e eram 41 alunos na sala. Tinha 23 anos, “era muito nova e tudo atrapalhava”, desabafa.

“Nenhum professor está colocado numa escola que não quer”

Com todos os receios e coisas menos boas, havia algo que lhe fazia “muito bem. Aquela gente tinha um carinho muito grande por nós e isso aquece o coração”. A sorte bateu-lhe à porta quando, depois do segundo ano em Borba de Montanha, a professora do primeiro ciclo voltou a concorrer e ficou 25 anos em Gondar, até se reformar. “Quando é mais nova, a gente adapta-se mais facilmente às coisas”, diz.

© Cláudia Crespo/Mais Guimarães

De Bragança chegou, por escolha própria, Júlio Borges. Está na cidade berço desde 2003 e começou a dar aulas três anos depois. “Fui eu que escolhi vir viver para Guimarães. Em Bragança, quando eu comecei a trabalhar, para alguém ficar efetivo, teria que ter, no mínimo, 35 anos de trabalho”, explica. A mulher também é professora e, por isso, a adaptação foi mais fácil. Quando apenas um dos cônjuges é professor “é muito mais complicado ter que deixar a família ou trazer os filhos e deixar o marido”. Relata a história de colegas que “preferiram ir para caixas de supermercado em vez de ter que deixar o vencimento entre autoestrada, mecânico e rendas, porque tinham duas casas”.




A questão monetária é levantada, também, por Emília Pinto. Esteve dez anos sem lecionar a tempo inteiro, mas quer regressar. “Até arriscava ir para longe, mas o que é que eu faço com os meus cães?”. Questiona-se sobre viver longe e frisa: “vou pagar para trabalhar”. Na sua perspetiva, “não é desafiante, financeiramente” ter esta profissão. “Um professor ganha muito pouco para a formação e responsabilidade que tem”, admite relembrando que, quando trabalhava no Porto, deixava uma parte considerável do seu salário na estrada e no carro.

“Tenho que avaliar os riscos para ir para longe”. Devido ao cansaço acumulado, para Emília Pinto, a estabilidade familiar é “sempre afetada, mesmo estando a viver em casa”. Profissionalmente, a vida também pode ser prejudicada. “Ficas com a vida condicionada”, diz relatando que, às vezes, basta apanhar um acidente para chegar atrasada às aulas e “as escolas não são flexíveis”.

Sistema de colocação “não tem em vista as necessidades reais”

Liliana Silva está na mesma escola há três anos e conhece alguns alunos desde o 10.º ano. Quando não acompanha os alunos no percurso escolar, sente que o trabalho não é concretizado. “Parece que todos os projetos que até tínhamos em vista e tentávamos organizar não conseguem ser concretizados. Gostamos de ver a evolução deles, o sucesso que vão conseguindo alcançar”, esclarece.

O professor que chegou de Bragança acredita que o atual processo de colocação dos professores “não tem em vista as necessidades reais das escolas, mas sim uma série de procedimentos e concursos que têm muitas outras situações paralelas que não ajudam em nada o bom funcionamento das escolas”. Explica que este processo “faz com que gente que é da zona da área geográfica não fique colocada, porque ficarão outros mais afastados. Há sempre alguém que é prejudicado, porque alguém é beneficiado”.

© Cláudia Crespo/Mais Guimarães

A professora Emília Pinto vai mais longe e afirma que “dentro do ensino não se consegue sonhar. Por mais que me esforçasse, o meu trabalho não era valorizado”. Antes da pausa que decidiu fazer na profissão, passou por Barcelos, Braga e Porto. Nunca viveu noutro ponto do país, não saiu de casa, mas esteve “sempre de um lado para o outro” e, apesar de “até gostar de uma experiência nova todos os anos, houve uma altura em que já estava saturada”.




A professora do 3.º ciclo e secundário, Liliana Silva, lembra que “nenhum professor está colocado numa escola que não quer”. A colocação é feita mediante as opções de cada um, mas, para mais tarde estar perto de casa, é preciso começar assim. Não nega que há dias em que está mais triste, mas faz questão de frisar que estão “todos no mesmo barco”.

A colocação é sempre incerta e andar com a casa às costas é a relidade desta professora, que, pela primeira vez, optou por não partilhar casa. Com este regime, não sabendo nunca o que vai acontecer no ano seguinte, confessa que já teve o sonho de ter filhos, “mas torna-se muito complicado. É muito cansativo e não é vida para ninguém, nem para os filhos que não veem os pais durante a semana, nem para os pais que perdem momentos cruciais no crescimento dos filhos”.

“As próximas gerações de professores vão ser pessoas que realmente querem dar aulas”

Apesar de ter passado por muito, Maria José acredita que os atuais professores e aspirantes a professores “vão passar por pior”.

Sorri enquanto diz que “é preciso gostar muito daquilo que se faz. O gosto pelos meninos e por ensinar tem que ser superior a tudo o que está pelo caminho. Ensinar não é fazer papéis. Os papéis têm que ser para outras pessoas, mais administrativo. O curso não tem nada a ver com a prática e tudo se torna diferente quando temos à nossa frente um bando de sorrisos”.

© Cláudia Crespo/Mais Guimarães

Muitas vezes a família está num outro ponto do país e o processo de adaptação a esta vida é difícil. “Vou a Bragança uma vez por período, nas férias ou pausas letivas”, conta Júlio Borges. Confessa que já foi quinzenalmente, mas que, a partir do momento que se tem filhos, a gestão complica e “quanto mais velhos pior, acabam por criar os laços e é mais complicado”.




Já não se considera de Bragança, mas também não se considera de Guimarães. “Não é fácil tirar um curso e estudar para depois fazer, em grande parte, trabalho de secretaria e longe daquilo que se concebeu e esperou para construir a sua vida”.

A vocação é, para Emília Pinto, o motivo que leva os mais jovens a ir para o ensino. “Não pode constituir família nem sequer fazer grandes planos. As próximas gerações de professores vão ser pessoas que realmente querem dar aulas”.

A professora de português, latim e grego, Liliana Silva, aconselha a que “quem tiver de se deslocar que venha de espírito aberto”. Fala das experiências que ganhou e garante que “todas elas vão fazer crescer, quer a nível profissional, quer pessoal”. O bom ambiente é o que a faz sentir bem no meio em que trabalha. “Há escolas e diretores que, efetivamente, são pessoas muito humanas e conseguem ser o mais solidárias possíveis. Se a escola for um bom suporte e facilitar a vida ao professor, emocionalmente o professor está melhor preparado para a distância”.

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