Quarteto de Cordas de Guimarães na igreja de Nossa Senhora da Oliveira

Hoje, sexta-feira, dia 2, às 21h30, o Quarteto de Cordas de Guimarães dá um concerto concerto, na igreja de Nossa Senhora da Oliveira, no âmbito do Festival Internacional de Música Religiosa de Guimarães. Sete Ultimas Palavras de Cristo na Cruz de J. Haydn. O concerto será transmitido online.

Foto: DR

As sete últimas palavras de Cristo na cruz são um conjunto de sete breves frases, retiradas de vários evangelhos, que Jesus pronunciou durante a sua crucificação. Estas frases são objeto de uma devoção e meditação especiais, principalmente durante a Semana Santa e serão “cantadas na Voz” do Quarteto de Cordas Guimarães.

Este ciclo de frases foi tomado como ponto de partida para diversas criações musicais de importantes compositores, das quais as mais notáveis são: As sete palavras de Jesus Cristo na Cruz, oratório de Heinrich Schütz; As sete últimas palavras de nosso Salvador, oratório de Saverio Mercadante (compositor que teve importante atividade e fez estrear óperas suas no Real Teatro de São Carlos em Lisboa); As sete últimas palavras de Cristo, de César Franck. Sofia Gubaidulina, James MacMillan e Ruth Zechlin também deixaram obras sobre este tema.


No concerto de hoje ouviremos uma outra: As sete últimas palavras de nosso Salvador, de Joseph Haydn, que teve variadas versões ao longo dos anos. Escrita originalmente em 1786, no final do período em que Haydn serviu a família Esterházy, a obra resultou de uma inusitada encomenda oriunda de Espanha: um clérigo de Cádiz solicitava ao compositor música puramente orquestral que servisse de interlúdio às “Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz” para acompanhar os Serviços Litúrgicos da Semana Santa. Sete adágios destinados à meditação na cerimónia a realizar na Sexta-feira Santa na Catedral de Cadiz.


A obra não tem similar na história da música: um movimento introdutório e um “Terremoto” final emolduram 7 sonatas em andamentos lentos. A primeira audição realizou-se na Sexta-feira Santa de 1787 (dia 6 de Abril) na Igreja de Santa Cueva, construída no interior de uma gruta. Era um universo de misticismo desconhecido para o austríaco. Num oratório construído numa gruta, o cenário era dramático, com todas as entradas de luz tapadas e apenas um grande candeeiro no centro quebrando a escuridão. O próprio Haydn descreve: “Ao meio-dia fechava-se a porta e começava a cerimónia. Depois de um serviço curto, o bispo subia ao púlpito, pronunciava a primeira das sete frases e discursava. Terminando, deixava o púlpito e prostrava-se de joelhos diante do altar. Este intervalo era preenchido com música. De igual modo, o bispo pronunciava a segunda palavra, depois a terceira e assim sucessivamente, seguindo-se a orquestra a pontuar cada discurso. A minha composição estava sujeita a estas condições, e não foi tarefa fácil escrever sete adágios, cada um com dez minutos, para serem tocados um após outro sem fatigar os ouvintes.”
A obra foi posteriormente apresentada em Viena e em Bona e sofreu variadas versões devidas ao próprio Haydn: quarteto de cordas; cravo; coro, solistas e orquestra, esta última estreada em Viena.


Os compassos iniciais de cada um dos adágios instrumentais são adaptações do texto das palavras de Cristo, respeitando a sua métrica e acentuação. Nas primeiras edições, Haydn incluiu até esse texto nas partes escritas, para que os músicos tivessem uma clara noção da ideia sobre a qual era estruturada cada Sonata. A associação íntima da música ao texto pretendia ainda que os ouvintes fossem envolvidos pelas palavras, mesmo que apenas sugeridas, e sentissem a meditação de forma mais profunda.


Para além das Sete Palavras, desenhadas em forma de sete sonatas lentas e meditativas, a obra conta ainda com uma introdução, também ela lenta, e com um curto andamento final – O Terramoto – que pela sua energia e velocidade contrasta com toda os restantes andamentos. Simboliza o terramoto que se segue à morte de Cristo e é um andamento que deixa uma profunda e dramática impressão de vazio. Haydn teria tentado também evocar as repercussões do terrível terramoto de 1755 na cidade de Cádiz, cuja zona marginal, tal como aconteceu em Lisboa, foi destruída por um maremoto.

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