QUE CULTURA PARA GUIMARÃES?

Por Tiago Laranjeiro

Economista

Escrevo esta semana sobre o debate público que está a decorrer sobre o futuro da Plataforma das Artes e da Criatividade. Na semana após um dos maiores e melhores eventos culturais que acontecem em Guimarães, o Guimarães Noc Noc (por sinal, promovido por uma associação), proponho darmos um passo atrás e vermos este debate por um prisma mais amplo.

  1. A Câmara repetiu durante anos, principalmente como argumento político contra quem ousava questionar, que a ação na cultura não se mede pelos públicos ou pelos resultados económicos. Paradoxalmente, é a própria Câmara que define, desde 2015, como únicos indicadores de avaliação da atividade da Oficina, precisamente os números de públicos e a redução de custos da estrutura. Estes indicadores são insuficientes e desajustados para avaliar o trabalho feito no setor, resultando numa caricatura do seu verdadeiro impacto. Mas são os únicos que o Município define para a Oficina, através do contrato-programa anual – sem divulgar os seus resultados.
  2. É para mim óbvio que, numa democracia liberal moderna, se avalie o impacto das políticas públicas. O Município investe anualmente vários milhões de euros no setor cultural, num total que ultrapassará a centena de milhões de euros desde o início do século. Qual o impacto deste investimento na sociedade? Que mudanças opera? Que públicos se estão a formar e como? Que novas práticas e criações este investimento está a potenciar, direta e principalmente indiretamente?
  3. Sobre a PAC, onde investimos coletivamente avultadas somas para um público reduzido (menos de 12000 visitantes, dados de 2017) como podemos abrir aquela “ilha” à cidade, e transformá-la em parte viva da cidade? Há melhorias óbvias a fazer, desde logo na comunicação institucional e na inscrição em circuitos, da rede internacional de arte contemporânea aos circuitos de vivência da cidade. Mas também na gestão do espaço público que é aquela praça, tomada que está por práticas sociais “desviantes” (para ser simpático), e sem atrativos que levem à sua vivência, principalmente tendo em conta o fim para o qual foi (re)construída.
  4. Havendo um tão elevado investimento neste setor, é importante que cada um de nós, Vimaranenses, saiba responder a esta questão: o que queremos do setor cultural no nosso concelho? Queremos uma programação cultural de vanguarda e apontada à contemporaneidade, para um público mais restrito mas capaz de a projetar “nos meios”? Queremos uma ação mais vocacionada para a transformação do território e da sociedade, formando públicos, envolvendo as pessoas, potenciando novas práticas e estimulando novas abordagens no maior número possível de cidadãos? Queremos grandes eventos, mais na ótica do entretenimento, de elevado impacto mas reduzida capacidade de inovação, que continuem a sobrecarregar e saturar o nosso Centro Histórico e, principalmente, penalizando quem nele habita? E, mais importante: que resultados queremos da ação do Município na cultura?
  5. Já passaram seis anos desde a Capital Europeia da Cultura 2012. É tempo de se fazer um amplo debate sobre o impacto real e duradouro que este evento teve. A cultura deixou de ser a marca-bandeira da ação do Município, substituída pelo Ambiente. Seis anos depois da CEC 2001, o Porto estava num acelerado processo de regeneração, urbana, social e cultural, que levou a cidade para uma projeção ímpar na sua história. Em Guimarães, como estamos e para onde caminhamos?

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