Que viva Abril!

por Torcato Ribeiro

Estamos em Abril de 2021 e já passou mais de um ano desde que pela primeira vez tomamos conhecimento de uma realidade que nenhum de nós imaginara vir a acontecer: a pandemia da COVID-19. Tempo em que fomos obrigados a mudar pequenos gestos do dia-a-dia, hábitos, e a redobrar precauções para evitar a propagação do vírus e salvaguardar a nossa vida e a dos outros. Um ano em que se aprofundou o isolamento e a solidão de muitos de nós, com maior incidência nas camadas mais idosas da população.

A palavra confinamento passou a regrar o nosso quotidiano, adiando encontros, afectos, e condicionando diversas actividades profissionais, com consequências que, não estando ainda devidamente quantificadas, sabemos que serão negativas num futuro próximo.

A vacinação, cujo antídoto foi encontrado em tempo record, decorre muito mais lenta que o desejado, exigindo de todos muita paciência e resignação até atingirmos a imunidade de grupo.

O confinamento prolongado, com todas as limitações impostas, inunda-nos de saudades da liberdade a que nos habituamos. Saudades redobradas neste mês em que conquistamos a liberdade há 47 anos, na gloriosa madrugada do dia 25 de Abril de 1974.

Hoje lembramos e comemoramos Abril, juntos ou isolados, cada um à sua maneira, porque Abril foi isso mesmo, um acto libertador duma sociedade até então condenada a viver uma realidade afunilada e encenada a preto e branco. Abril devolveu a cor e a dignidade de viver aos portugueses.

As gerações após Abril encontraram um país livre e com uma boa parte das necessidades básicas resolvidas. Não estão todas, infelizmente, mas muito foi feito para melhorar as condições de vida dos mais desfavorecidos de acordo com as exigências do tempo em que vivemos. No entanto, fruto de sucessivas políticas erradas, tem aumentado o fosso entre ricos e pobres pondo em causa o princípio da igualdade de oportunidades e da justiça social.

O que está por cumprir tem sido habilmente aproveitado por aqueles que sempre estiveram contra os direitos e a liberdade conquistados. O populismo cavalga a onda de insatisfação de muitos portugueses e o seu discurso demagógico, xenófobo e racista, não augura um futuro promissor para os mais desprotegidos. Sopram ventos adversos que nos enchem de inquietação e nos obrigam a uma vigilância permanente em defesa dos valores democráticos e de políticas que promovam a distribuição da riqueza reduzindo as actuais desigualdades sociais.

Hoje comemoramos um dia em que a maioria esmagadora dos portugueses abriu as portas da sua imaginação e iniciou a concretização de projectos de vida há muitas décadas adiados, construindo um novo tempo de participação e ajuda em que a vontade de muitos permitiu os avanços civilizacionais que as gerações que nos precederam encontraram. A geração de Abril deixou um mundo melhor do que o que lhe calhou em destino, porque teve a oportunidade de recusar a realidade que lhe impuseram e lutar para a transformar. Saiba a geração herdeira destas vontades, alcançadas com muito sacrifício, lutar para honrar e manter os valores conquistados em Abril. Um Abril completo e sem interrupções que o desviem do caminho na busca de uma sociedade verdadeiramente livre, justa e democrática.

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