“QUEM CONTROLA O PASSADO, CONTROLA O FUTURO. QUEM CONTROLA O PRESENTE, CONTROLA O PASSADO” GEORGE ORWELL, 1984

por JOÃO TORRINHA
Advogado
Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

Os catastrofistas sempre me irritaram. Nunca tive muita paciência para todos aqueles que vaticinavam que o fim estava perto, que vivíamos tempos tenebrosos, o quais nos conduziriam fatalmente, numa espiral de decadência, a um buraco de onde nada sai.

Esse facto, todavia, não me impede de ter, como diz o povo, olhos na cara, ou dois dedos de testa, os quais, uns e outros, servem para constatar que vivemos tempos inquietantes. E assim, progressivamente, aquele jovem que torcia o nariz a apocalipses iminentes, está a transformar-se num adulto preocupado.

Só para termos uma ideia, respigo notícias soltas dos últimos tempos.

Na América, após o enésimo tiroteio numa escola, que dizimou mais de uma dezena de vidas, o debate, como é normal nestas coisas, reacendeu-se. Contudo, ao contrário do costumeiro “incha, desincha e passa” até ao próximo massacre, desta vez algo mudou. Os jovens daquela escola resolveram não ficar quietos, constituindo um movimento de protesto notável que tem alastrado por todo o país e que parece não estar para parar tão cedo. Pois logo de seguida, começou a circular nas redes sociais uma tese segundo a qual eles não passariam de atores contratados para o efeito pelos defensores de leis mais restritivas para o uso de armas.

Uns dias antes, o Procurador Especial que está a investigar a interferência da Rússia nas eleições americanas concluiu que ela era bem real e que uma das formas que revestiu era justamente essa: a criação em massa, por centenas de informáticos, de notícias falsas que prejudicassem um candidato em detrimento de outro.

A realidade é mesmo assustadora: a propagação de notícias falsas tornou-se uma verdadeira arma nas mãos de organizações ou Estados mal-intencionados e promete tornar-se uma dos maiores males do nosso tempo, fazendo com que parte da população viva alienada, numa realidade que pura e simplesmente não existe.

Ainda por estes dias, foi anunciado que a China se prepara para lançar em 2020 um “sistema de crédito social”, através do qual avaliará o grau de (des)confiabilidade dos seus cidadãos.  Este projeto visará estabelecer uma espécie de ranking entre os cidadãos, o qual se fará analisando a atividade diária de cada um deles: o que compra; onde está, com quem interage, quantas horas gasta em determinadas atividades, que contas paga ou deixa de pagar. Uma miríade de dados que depois é tratada pelo Estado com vista a estabelecer o tal ranking, o qual seria público e poderia servir para uma enormidade de fins, dos mais inofensivos, aos mais assustadores.

Quer o fenómeno das fake news, quer este último sistema nos remetem para realidades orwellianas que pensávamos estarem acantonadas em páginas de livros. Não estão.

Não sei se estas preocupações que agora me assaltam resultam da novidade das mesmas ou se estou pura e simplesmente a ficar mais velho e menos otimista. Não sei.

Sei duas coisas: que me preocupam mesmo, mas que não deixo de continuar a ter em mim a fé na espécie humana, capaz de tudo o que quiser: das mais incríveis, como de mandar um carro para o espaço, às mais singelas, como a fabulosa resposta daquele jovem aluno da Flórida quando lhe perguntaram se era de facto um ator pago: “se tivessem visto a nossa produção de Um Violino no Telhado, saberiam que nunca ninguém me pagaria para atuar.”

 

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