Ricardo Martins Lobo, presidente do Conselho Fiscal do Vitória entre março de 2022 e março de 2025, tornou público um artigo em que explica o seu voto contra a venda de 17% da Vitória SAD à V Sports. O texto foi divulgado também pelo Movimento VSC, do qual é membro, que o classifica como de “leitura obrigatória”. Segundo o antigo dirigente, o encaixe de 3,8 milhões de euros em prestações acessórias é “uma gota no oceano” perante a dimensão dos problemas da SAD. Aponta dois: um défice económico crónico e uma dívida que se aproxima dos 100 milhões de euros. Prevê que o passivo esteja perto desse valor a 31 de dezembro de 2026.
Com base numa tabela de indicadores da SAD, ainda sem os dados completos da última época, Martins Lobo refere que, nas últimas seis épocas, a SAD acumulou resultados negativos de 38 milhões de euros, o que dá uma média anual de 6,4 milhões, com lucro em apenas duas épocas. O passivo atual, de cerca de 85,3 milhões de euros, é 38% superior ao da época 2020/21 e o mais alto de sempre.
Os juros passaram de cerca de 684 mil euros em 2020/21 para mais de 5,6 milhões na última época, o que representa agora 15% dos gastos totais, contra 3% há cinco anos. O défice económico, que compara as receitas correntes (sem venda de jogadores) com as despesas correntes, ultrapassa os 21 milhões de euros. Só com pessoal, fornecimentos e serviços externos e juros, a SAD gasta mais de 36 milhões.
Principais indicadores da Vitória SC Futebol SAD nas últimas seis épocas. Fonte: tabela divulgada por Ricardo Martins Lobo / Movimento VSC.
O autor compara ainda a operação atual com a de março de 2023. Nessa altura, os dois milhões de euros eram doações ao Vitória Clube, enquanto agora o clube recebe o mesmo valor, mas obrigatoriamente sob a forma de prestações acessórias na SAD. O passivo é também 63% superior ao de então. Em 2023, a venda permitiu liquidar a dívida pendente ao empresário Mário Ferreira, relativa à compra das ações em 2020, e a V Sports disponibilizava uma linha de crédito de 20 milhões de euros a juros de 5,5%. Lembra ainda que a direção era então liderada por António Miguel Cardoso, que defendia que o Vitória nunca deveria perder a maioria.
Para Martins Lobo, a decisão real dos sócios não será sobre os 17%, mas sobre o que se segue. Antecipa que, dentro de meses, será discutido um aumento de capital em que o clube perderá a maioria, ficando a V Sports na liderança efetiva por deter o capital, e o Vitória “estrangulado” na tesouraria. Defende uma reestruturação completa da SAD, nos gastos correntes e no passivo, que exige “coragem, capacidade executiva e uma grande abrangência e união”.
O voto, sublinha, não é “contra ninguém”, nem contra uma direção, mas uma posição consciente de que a solução proposta “não irá resolver nada”. Termina com um apelo à participação massiva dos sócios.
O Movimento VSC, no comentário que acompanha o artigo, resume o risco da mesma forma: vender hoje 17% para, amanhã, enfrentar a perda definitiva da maioria. Considera que o Vitória precisa de uma reestruturação profunda e não de uma solução que adia os problemas e compromete o futuro
