Rui Rocha: “O problema do ordenamento mexe com tudo”

O candidato do PAN quer mudar a forma de olhar para os problemas.

© Cláudia Crespo/Mais Guimarães

Considera que era importante surgir, nesta altura, um partido como o PAN?

Infelizmente, há temas que estavam menosprezados. A questão da poluição, dos rios, da destruição da própria paisagem de uma forma acelerada nas últimas quatro décadas, do bem-estar animal. Há também muito para fazer ao nível da inclusão, não só da população que tem mais dificuldades, de mobilidade, deficiência visual e auditiva… A própria forma como nós vemos a cidade e o urbanismo para as crianças… Há muita gente que precisa de nós, os animais precisam de nós, a natureza precisa de nós.

O atraso no aumento da capacidade do centro de recolha animal de Guimarães é uma preocupação e uma reivindicação que querem colocar na agenda nesta campanha eleitoral?

O CROA não dá resposta. Para o PAN, a questão vai muito além disso. Isso é o que nos distingue, por exemplo, do PS ou até do PSD. Em poucas semanas vai ficar sobrelotado, não vamos resolver o problema. Temos que ter políticas pró-ativas de sensibilização junto da população escolar e da população adulta, nomeadamente a população mais carenciada, de que os animais têm que ser vistos de outra forma. Com políticas pró-ativas, em oito anos, conseguimos tornar Guimarães o primeiro concelho do país sem animais abandonados.

Como é que classifica a atividade do município nestas áreas que vos são sensíveis?

Em relação à área animal, têm feito os mínimos. O candidato do PS atira-me três ou quatro números e isso espelha claramente como é que eles vêm o problema animal: um problema sanitário. Não sei quantas vacinas, não sei quantas adoções, não sei quantos lugares. Isso é muito pouco e não tem nada a ver com a nossa visão para o problema.

Passemos então para o ambiente.

Há aqui uma questão que tenho que focar, a questão da poluição dos rios. A Câmara não tem poder de fiscalização e isso também tem sido servido como desculpa. A Câmara pode sempre fazer a denúncia. Devia ter uma equipa especializada, devidamente formada, que fizesse a ponte com o SEPNA.

Os guarda rios não são exatamente isso?

Estamos a falar de uma equipa que era muito fácil de constituir, muito fácil de preparar, mas, no entanto, o PS esteve à espera que o PAN viesse para as eleições anunciar essa medida para anunciarem, em cima das eleições, a mesma medida. Não tínhamos que estar à espera 30 anos para dar um passo tão simples e que é essencial.

Falou de paisagem… A montanha da Penha é apontada como um problema de destruição ou transformação da paisagem.

Há um problema claro de falta de planeamento e de ordenamento. O problema da floresta e da paisagem são dois problemas claros de décadas de falta de planeamento, de ordenamento, de ouvir o território como deve ser visto, de forma integrada como um ecossistema. O crescimento enorme que Guimarães teve nas últimas quatro décadas levou a isto que nós temos: uma paisagem consumida por habitações, parques industriais com um povoamento extremamente disperso ao longo das vias, criando problemas graves de acesso e de mobilidade, problemas que são muito difíceis de resolver agora. 

Se formos ver a história, a Penha está melhor do que estava há 100 anos. Há uma recuperação da Penha e um projeto para avançar que concordo, mas temos que acautelar outras questões, se não estamos a deixar construir demasiado na encosta e para que é que estamos a deixar construir. Guimarães não se pode tornar uma cidade segregadora, um modelo de crescimento urbano completamente anacrónico que em qualquer país do mundo se tenta combater.

“O PS esteve à espera que o PAN viesse para as eleições anunciar essa medida para anunciarem, em cima das eleições, a mesma medida.”

Rui Rocha

Não tem sentido pensar a habitação social, por exemplo, como foi pensada há 20 ou 30 anos, em que juntavam todas as pessoas com necessidades de habitação?

A cidade tem que ser acessível a todas as classes sociais. Infelizmente, não vamos conseguir bater as classes sociais, mas não podemos promover a separação destas três classes sociais. A sociedade tem que funcionar como um ecossistema. Essa produção de habitação social numa determinada zona da cidade, muitas vezes até fora da cidade, não tem sentido nenhum nos dias de hoje. 

Preocupa-o que Guimarães esteja a perder população das últimas duas décadas?

Esse é um problema estrutural, é comum à maioria esmagadora dos concelhos do país. Tudo à volta de Braga ou estagnou ou está a perder população. A maior parte da população de Guimarães vive com rendimentos muito baixos. O rendimento médio da família de Guimarães é muito abaixo da média nacional. Como é que as pessoas vão ter acesso ao tipo de habitação que se tem promovido? É habitação para a classe média e média alta. É preciso regular, é preciso mais habitação social, mais habitação com preços controlados e é importante que se equilibre o território. É preciso fazer um diagnóstico muito rigoroso.

© Cláudia Crespo/Mais Guimarães

Que ideias têm para a transformação da mobilidade em Guimarães?

O problema do ordenamento mexe com tudo. Temos um problema do acesso à cidade, da falta de rede de transportes públicos de uma forma equilibrada. Dentro do próprio concelho é difícil ir de uma ponta à outra. Tem que haver uma rede de transportes públicos que tem que estar muito ligada com o setor do ordenamento do território.

A curto prazo, o que é mais fácil fazer é saneamento, dar conforto e segurança às nossas ruas e eixos principais e prever de que forma podemos conciliar o automóvel, por exemplo, com com ciclovias. A médio prazo, pensar numa rede de transportes públicos que cubra todo o território. A longo prazo, claro que tem que haver uma aposta na ferrovia. O ordenamento tem que ser pensado sempre a médio longo prazo. Como é que nós temos vilas sem creche, sem lar de idosos, sem piscinas, centros, de saúde? As pessoas vão ter filhos se se sentirem seguras e com uma rede social que os proteja. 

Qual é o resultado que o deixará satisfeito no dia 26 de setembro?

Entrarmos na Assembleia seria um excelente resultado. Vamos lutar de forma séria, convicta na Assembleia, para que os rios sejam despoluídos, para que o bem-estar animal seja um facto de Guimarães, para que a natureza, a paisagem, o ordenamento do território sejam levados de outra forma. Não queremos uma cidade cada vez maior, com cada vez mais problemas e depois o resto do concelho a esvaziar-se.

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