SALVADOR MARTINHA: “GOSTO MUITO DE GUIMARÃES”

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Salvador Martinha sobe aos palcos do CAE S. Mamede no próximo dia 24 de novembro, pelas 22h00, um local que o próprio artista considera sempre muito acolhedor. O humorista português esteve à conversa com o Mais Guimarães sobre o seu regresso a Guimarães e sobre o seu novo espetáculo, “Cabeça Ausente”.

Como surgiu a ideia para o “Cabeça Ausente”?

Basicamente, já não faço muito romantismo à volta do stand-up, é mesmo como se fosse a minha padaria. Todos os anos faço um espetáculo novo, e depois mato esse material cómico, porque acho que quanto mais capacidade temos de arrumar o material, o nosso humor vai-se tornando mais profundo. Faço piadas de aeroportos, faço piadas de supermercados, disto e daquilo. Às tantas já estás a falar de ti e das coisas mais íntimas. E à medida que os anos vão passando, vou notando que os meus espetáculos já são um bocadinho livro aberto, ou seja, já não é aquele humor tão profundo, acaba por ser um bocadinho mais interior. Às vezes comparo o fado com o humor. O humor é fado maquilhado, ou seja, muitas vezes os humoristas são pessoas tristes que estão mascarados de pessoas alegres, e é esse é sempre o nosso objetivo: que as pessoas se riam.

Tem corrido tudo às mil maravilhas?

Sim. Quer dizer, no Casino de Troia saíram duas pessoas a meio do espetáculo.

Mas por algum motivo especial?

Estava no Casino de Tróia e disse assim ‘no Casino em novembro vão haver dois tipos de pessoas: há as pessoas que vão ver mesmo o espetáculo e há as pessoas que vão ver porque estavam no Casino’. Este espetáculo reflete no que é certo e no que é errado. Estamos numa altura em que as pessoas pensam muito se podem rir disto ou daquilo, o que é que é certo e errado, e o meu espetáculo vive muito nesse limbo. Não é um espetáculo de humor negro, mas reflete sobre questões que podem ser para algumas pessoas polémicas.

E tu não tens qualquer problema com isso?

Este é o espetáculo em que menos me autocensuro. Há sempre uma autocensura, e neste espetáculo não acontece.

“Cabeça Ausente” é o nome do espetáculo. O que vai na cabeça de Salvador Martinha?

Chamei-lhe “Cabeça Ausente” porque as pessoas estão todas com um défice de atenção gigante. Tu estás em casa a ver televisão, estás no computador, fazes sempre muitas coisas ao mesmo tempo, sei disso porque sempre fui muito distraído. Só que agora a reflexão dos meus espetáculos é que já não sou só eu que estou distraído. Acho que a humanidade está distraída, não está com atenção. E é isso que vai na minha cabeça, é que já não me sinto sozinho.

Ansioso por vires a Guimarães?

Eu gosto muito de Guimarães. Não sei explicar porquê. As pessoas dizem-me que os públicos são diferentes. Acho que cada vez mais os públicos começam a ficar com referências globalizadas. Há dez anos, se calhar sentias que ias a um sítio e as pessoas não sabiam do que estavas a falar. Agora, eu sinto que os públicos são muito mais modernos, mas Guimarães sempre esteve nessa linha da frente. É uma cidade muito urbana, com muitos jovens e sempre senti que é daquelas cidades em que o humorista está descansado, e sinto que Guimarães está completamente alinhado com o meu humor. E o CAE de S. Mamede é um teatro engraçado, é assim peculiar, parece uma montanha russa, por ser muito grande. Mas é sempre muito “cosy”, e as pessoas de lá são muito porreiras. Portanto sim, gosto muito do público de Guimarães.

E histórias engraçadas cá? Tens? Lembro-me de uma com o Luís Franco Bastos que ficou na memória dos vimaranenses.

Essa história já foi contada milhares de vezes, acho que já não tem muita validade estar a contá-la novamente, porque o Bastos já contou. É que Guimarães tem uma noite incrível. Portanto é aquela boca do lobo. Uma pessoa sai do teatro e começa a ouvir uma voz: “Salvador, vem sair à noite”, e tenho que resistir. Mas aviso já que desta vez não posso sair à noite, porque a minha filha faz anos no dia a seguir.

Para terminar, na tua opinião, a comédia tem cada vez mais espectadores?

Sim, sobretudo o stand-up, que foi uma coisa que explodiu muito nos últimos tempos. Teve um pico no “Levanta-te e Ri”, depois continuou o underground a crescer mas não tinha a visibilidade das televisões, e agora está a ter um pico muito grande. Eu associo muito o stand-up ao rap. Acho que a sociedade está um bocadinho farta de coisas plásticas, e o stand-up e o rap surgem nesse sentido, das pessoas que dizem as cenas, que tocam na ferida. E as pessoas, sobretudo de uma faixa etária nova, dos 16 aos 34, identificam-se muito com isso, e penso que quer os humoristas quer os rappers têm a capacidade de saber retirar essa plasticidade do seu conteúdo.

 

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