SALVEMOS GRETA THUNBERG

José João Torrinha,

Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

Fenómenos há que, por muito demoradamente que para eles olhemos, por muitos ângulos que adotemos na sua análise, não cessam de nos deixar perplexos.

Por estes dias, aconteceu um desses casos. Falo das inusitadas reações que fui lendo, um pouco por todo o lado, ao discurso e à própria figura da jovem sueca Greta Thunberg, lido na ONU.

Ponto prévio: Greta Thunberg resolveu dedicar-se a uma causa que deveria ser a causa de todos. A causa das causas: salvar um planeta onde vivemos e para o qual não há alternativa. Greta acredita, como uma esmagadora maioria da comunidade científica, que as condições de vida na Terra se estão a degradar e que essa degradação advém, em boa medida, da nossa própria ação. E acredita que se nada for feito para inverter este estado de coisas, podemos chegar a um ponto de não retorno que torne insustentável a nossa presença neste planeta.

Como disse, Greta não está sozinha nestas convicções. Não acordou um dia a pensar no apocalipse, antes tem atrás de si pessoas que estudaram a fundo estas questões e em cujas conclusões se apoia.

Então se é assim, se as ideias da jovem sueca são cientificamente sustentadas e se aquilo que a move é a vida de todos nós, e de quem nos suceder neste planeta, porque é que a sua ação enraivece tanta gente?
Digo “enraivece” porque foi assim mesmo: desde insultos dos mais básicos, a piadolas com o seu nome, a gozo com a sua doença, passando por teorias da conspiração acerca dos seus alegados obscuros motivos, valeu de tudo para fazer bullying à jovem.

Não dá para entender. É que se alguns ainda poderão ser motivados pela mais pura e atrevida ignorância, outros há que, até pela responsabilidade de comentar em espaço público, deviam pensar um bocadinho antes de afiar a pena.

É que para além dos ignorantes, outros ficam desvairados com a jovem sueca porque acham que a defesa do planeta é uma causa “de esquerda” (e se é de esquerda então é para contrariar). Essa é uma ideia estúpida, porque a causa da humanidade não é de esquerda, nem de direita. Porque carga de água alguns acham que a defesa do planeta é o caminho para o socialismo é outra coisa digna de figurar no museu da imbecilidade.

Mas aqueles que mais me irritam, confesso, são os que vociferam que aquela miúda deveria era estar na escola. Vejamos: aquela rapariga estava a discursar perante líderes mundiais, nas Nações Unidas! Em termos de aprendizagem, de enriquecimento pessoal, haverá algo de mais fantástico do que o que se está a passar com ela? Quando digo que o argumento me irrita, é porque é um argumento sonso. Claro que quem o brande não está a pensar naquela jovem. Está é a usar esse subtrefúgio porque não gosta da mensagem. Nunca ouvi nenhum dos que manda a Greta para a escola estar preocupado com jovens ginastas, atores, modelos e por aí fora que cedo se dedicam a outras atividades nas suas vidas.

Dá-se o caso de esta estar a lutar por todos nós, o que devia ser mais do que suficiente para que toda a gente, no mínimo, a respeitasse.
Aqui chegado, devo dizer que poucas coisas devem ser “mais 2019” do que ter que escrever um artigo inteiro a defender uma jovem de dezasseis anos com síndrome de Asperger e que quer salvar o mundo. Que tempo este!

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