“Ser curador é criar contextos para que o património artístico possa ser transmitido e narrado”

© João Bastos / Mais Guimarães

Marta Mestre é a nova curadora do CIAGJ, trabalhou durante vários anos no Brasil, como curadora no Instituto Inhotim, Minas Gerais, curadora-assistente no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, curadora-convidada e docente na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro. Em Portugal, iniciou o seu trabalho em 2003 como mediadora de exposições no Centro Cultural de Belém, Lisboa e no Museu Jorge Vieira, Casa das Artes, em Beja.

Entre 2009 e 2019 ministrou as unidades curriculares de História da Arte nas Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e Faculdade de Ciência e Tecnologia, ambas em Lisboa.

É formada em História da Arte e em Cultura e Comunicação, pela Universidade Nova de Lisboa e pela Université d´Avignon, tendo desenvolvido pesquisa de mestrado sobre mediação e arte contemporânea.


Como é que alguém que nasce numa pequena cidade do interior de Portugal – Beja – acaba por se interessar por arte moderna e contemporânea e por fazer uma carreira profissional internacional nesta área?

Vivi em Beja até aos 17 anos e logo fui estudar para fora. Venho de uma família de classe média em que os meus pais foram a primeira geração que estudou até à Universidade, mas sempre convivi com livros, com arte, com bibliotecas, com museus. A tradição e a contemporaneidade sempre estiveram ligadas. Faz toda a diferença ter acesso a uma diversidade de perspectivas sobre o mundo quando somos crianças e jovens. Daí a interessar-me por arte e escolher estudá-la foi um passo. 

Como define a sua intervenção enquanto curadora?

Ser curador é criar contextos para que o património artístico possa ser transmitido e narrado, é criar significados coletivos em torno de obras de arte, processos artísticos. Uma vez que não existe arte fora do mundo, essa intervenção tem de estar fortemente ligada aos problemas e desafios do presente. É uma actividade que tem uma parte de pragmatismo, na gestão de coleções e obras, mas que também tem um grande alcance inventivo, propositivo.

“Há um longo caminho a percorrer na participação dos privados na cultura”

Marta Mestre

A sua atuação tem sido essencialmente em instituições públicas. Que importância tem o retorno financeiro dos projetos na sua abordagem?

Os modelos da cultura financiada exclusivamente com recursos do estado estão em crise. Devemos reivindicar mais orçamento de estado para a cultura, e especialmente mais políticas de acesso para todos. Mas também há um longo caminho a percorrer na participação dos privados na cultura. Esta participação deve ser regulada, não pode criar uma hegemonia neoliberal. Defendo uma total autonomia da programação dos museus e das suas equipas, e valores de diversidade cultural, de tolerância, de espaço público. Há que encontrar um equilíbrio nesta gestão. Isso requer recursos humanos qualificados, planos de trabalho orientados. É algo que não compete à curadoria executar, mas que pode pensar.

© João Bastos / Mais Guimarães

A América Latina surgiu em grande força no panorama literário mundial, nas décadas de 60 e 70, do século XX. Há algum movimento equivalente na arte pós-moderna do continente?

A arte brasileira, mas também mexicana, colombiana, entre outras, possui uma força cultural muito grande. Alguns dos nomes principais da arte contemporânea a nível mundial vivem e trabalham nestes países. No campo artístico já não existem movimentos ou escolas como existiram até aos anos 60 do séc. XX. A pós-modernidade estilhaçou essas unidades e abriu-se à diversidade. A própria corrente literária do realismo mágico dos anos 70, que afirma nomes incontornáveis como García Márquez, essa força da literatura de que fala, é um hibridismo de tradições, autores e formas de narrar.

O tempo que esteve no Brasil permitiu-lhe olhar para Portugal com distanciamento. Como é que viu a cultura em Portugal, a partir do outro lado do oceano? E como é que os brasileiros nos vêm?

Viver no Brasil permitiu-me entender que o mundo é um espaço amplo, mas também entender a grande riqueza que temos aqui. Existe um grande desconhecimento dos dois lados do atlântico, mas também a escala de ambos é muito diferente. Eles são mais de 200 milhões. Nós, 10 milhões. 

“É preciso pensar o público não como uma massa homogénea, porque aí só veremos números, e entender os públicos no plural”

Marta Mestre

A arte contemporânea está condenada a ser para um universo elitista, ou há projetos a este nível que podem chegar às massas?

A arte contemporânea é descrita de elitista, mas conheço inúmeros casos de museus onde o número de visitantes estava a aumentar antes da pandemia. O que penso que deve ser feito é desenvolver uma programação que não tenha como objetivo principal atrair as massas, que seja exigente e cuidadosa, que crie zonas de contacto em diversos níveis especialmente com a educação, e que construa um relato museográfico que seja tudo menos banal. É preciso pensar o público não como uma massa homogénea, porque aí só veremos números, e entender os públicos no plural. Há também que evitar uma política eclética, programar um pouco de tudo para que o público acuda de qualquer forma. O que tenho visto em muitos casos é que até mesmo artistas e universos considerados complexos podem ter uma afluência de públicos considerável. Para que um museu possa ter uma ação efectiva no território é necessário que outras componentes e equipas estejam alinhadas, como a comunicação e o turismo, a ação nas plataformas digitais, o contacto com as escolas, associações e colectividades, entre outras. Em suma, é preciso um trabalho a várias mãos e cabeças especializado no museu, entendendo-o como um instrumento da democracia, um valor social.

Brumadinho é uma cidade com 40 mil habitantes, contudo, o Instituto Inhotim – Centro de Arte Contemporânea tem mais de 300 mil visitantes por ano. Algo assim é reproduzível em Portugal?

O Inhotim é um museu de escala mundial, embora se situe próximo de um vilarejo. É um museu ao ar livre. São precisos três dias para uma visita completa. Nele trabalham mais de 300 funcionários, entre curadoria, artistas e jardineiros. Portugal não tem esta escala, mas pode desenvolver modelos de museus inovadores. A importância de um museu não passa pela sua escala. Por exemplo, a internet vem baralhar o local e o global de uma forma inédita. 

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Disse em tempos, numa entrevista, que “a arte ainda guarda, nas nossas sociedades, uma função de cura”. O que é que podemos esperar da arte, nomeadamente em Guimarães, num tempo em que sentimos, como nunca, as sociedades ameaçadas pela doença? 

Guimarães é uma cidade de ações coletivas e que protagoniza um lugar muito especial de ligação entre a tradição e a contemporaneidade. Está voltada para o passado e para o futuro em simultâneo. É preciso que estas duas pontas de um mesmo fio estejam ligadas. Apostar nessa religação das pessoas ao seu tempo, assim como à sua história, permite construir sociedades menos doentes, como refere. A doença surge quando não sentimos a permanência do mundo, como refere a filósofa Hannah Arendt. 

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