SINAIS DE FOGO

Por Tiago Laranjeiro.

De política, nenhum de nós sabia nada. Era como se tudo o que vinha nos jornais se passasse a séculos e milhares de quilómetros de distância. De um modo geral, a minha família toda abstinha-se de «políticas», coisa que era reservada a uma espécie humana que nela não tinha representação: os «políticos», olhados todos com irónica displicência.

O parágrafo anterior foi retirado do curioso romance “Sinais de Fogo”, de Jorge de Sena – que hoje dificilmente seria publicável por editoras respeitáveis. Sei que ando monomaníaco nos artigos que aqui vou escrevendo e que me servem por ora para satisfazer o “gosto” à desilusão da política. Achei este excerto muito curioso, principalmente porque se reporta à memória que Jorge de Sena tinha do Portugal da sua adolescência, na segunda metade da década de 1930, no dealbar da guerra civil espanhola. Mas tenho para mim que não seria diferente daquilo que a esmagadora maioria de nós diríamos das nossas famílias de hoje. Na minha era assim, até que aceitaram que o “seu” rebento tivesse degenerado para essa espécie (des)humana.

Mas, se o Portugal de 1930 se podia dar ao luxo de assim ser (podia?), a natureza da democracia exige a participação das massas e uma cidadania crítica e ativa. E nós, que temos mais informação e escolaridade do que alguma vez os portugueses tiveram no passado, estamos anestesiados pelo excesso dessa informação e por um “egoísmo” natural de cuidarmos das nossas vidas sem notarmos que a carestia de cada um é reflexo da sociedade à nossa volta. Nada disto é novo, só surpreende pela sua constância na nossa consciência coletiva.

Ah! Daqui a um mês há eleições. Conformados, vemos a sucessão da política à nossa frente, nas suas procissões e rituais, à espera da chegada do santíssimo sacramento eleitoral. Damos de barato que já sabemos o resultado e, mais um menos um, os ungidos que nos dirigirão nos próximos quatro anos. E cá estamos, mansamente, a ver o cortejo, qual mixórdia tutti-frutti, de Begonhas e Raríssimas a passar à nossa frente (tudo sem sair do distrito). Dia 6 não se esqueça de lá ir comungar, na promessa da vida terna dos sonhos da campanha.

Eu sei que a História não se repete, mas parece. Em “Sinais de Fogo” já temos um vislumbre de “fake news”, a inanidade da comunicação social, a alienação. Também lá está a obsessão com a sexualidade e a manutenção da ordem social, em medida exatamente contrária àquela com que agora se condena essa ordem e essa sexualidade opressiva. E o absurdo que é viver com todas aquelas incoerências, tal como hoje vivemos (diga lá de sua justiça, Sr. Leitor? Eu por mim cá vou vivendo com a incoerência de perorar contra o estado do sítio sendo consciente da minha militância, e com a deselegância de lançar farpas à inanidade da comunicação social nas suas próprias páginas).

Em 1930 já éramos assim. Mansamente toleramos mais de quatro décadas da dita-dura e levamos agora outro tanto de demo-cracia. Ao menos agora podemos perorar sobre as preferências do demo, da dita, ou da dura. A cracia (“elemento de composição. Exprime a noção de governo, poder, força”, diz-me o Priberam) está sempre assegurada. Em 1930 como em 2019.

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