Tempos de Exceção

Por César Teixeira.

Vivemos tempos de exceção. Tempos que perdurarão na nossa memória individual no tempo de vida de cada um de nós. Mas tempos que vão também marcar a memória coletiva. É nestes tempos de exceção que, tradicionalmente, emergem novas lideranças. Que rompem o passado e rasgam novos horizontes.

Ao longo dos tempos, em momentos de crise, a Humanidade, mesmo em tempo de trevas, viu surgir a cada crise, uma oportunidade. E essas oportunidades foram exploradas e potenciadas por lideranças que, interpretando e antecipando os ventos da História, foram conduzindo e condicionando os seus povos.

Hoje vivemos desses tempos. O surto de covid 19, para além das questões de saúde publica trará consequência aos níveis económico e social e, consequentemente, ao nível político.

Atualmente os centros de poder estão muito difusos. E este é, do meu ponto de vista, um dos grandes problemas da atualidade ao nível político. Temos um poder político muito arreigado no conceito tradicional de Estado. Mas este poder político condiciona cada vez menos a vida o quotidiano dos cidadãos. De todo o modo, aos olhos do cidadão é este o poder político que perante eles responde. Mas o facto é que aqueles que fiscalizam, não são aqueles que têm o efetivo poder de decidir.

Na verdade, hoje é ao nível europeu que passa muito do processo decisório. Que efetivamente condiciona as nossas vidas. Mas pese embora seja avassalador o peso legislativo dos órgãos europeus, o facto é que este poder pouco ou nada é sindicado pelos cidadãos.

Que continuam a não se sentir minimamente representados coletivamente por instituições que são sentidas como distantes. Ou seja, os Estados nacionais lidam com a emoção das pessoas que os elegem, mas não dominam todos os meios ou instrumentos que lhe permitam exercer liderança efetiva. Por sua vez, quem tem meios ou instrumentos para liderar, não tem domínio afetivo. E esta difusão de responsabilidades dificulta a afirmação de novas lideranças e a definição estratégia. Fiscalizamos ativamente quem pouco poder tem.

Este continua a ser ao fim de vários anos um problema europeu. A União Europeia tem aqui uma oportunidade de ouro para se afirmar politicamente. Porque esta é uma crise europeia. Que afeta transversalmente a generalidade dos Países. Para permitir essa afirmação, nada melhor do que uma crise comum. Sendo que essa afirmação é hoje, mais do que nunca, particularmente relevante e imperiosa, sob pena de o processo civilizacional que nos tem caracterizado ser completamente torpedeado.

Vivemos em plena crise de saúde publica. Mas resposta europeia não foi homogénea. Mas gora temos de passar à fase seguinte. A fase da reconstrução. E aqui não basta falar em milhares. Números invariavelmente elevados, que, em termos práticos, chegam em valores reduzidos à economia real.

Os efeitos económicos e sociais podem ser devastadores. Os sistemas implementados de apoio ao emprego, como regime denominado popularmente como “lay off simplificado”, permitiu assegurar em plena crise a manutenção de muitos postos de trabalhos. As moratórias bancárias permitem anestesiar dificuldades. As facilidades no pagamento de impostos, permitem dilatar no tempo responsabilidades. Mas o facto é que, mais cedo ou mais tarde, a anestesia vai deixar de produzir efeitos e a realidade pode trazer problemas muito difíceis ao nível e económico e social. Somente com uma liderança forte ao nível europeu conseguiremos controlar danos.

É neste momento que se pediria que emergisse uma grande liderança que soubesse interpretar as novas realidades e que, munida de instrumentos supranacionais, conseguisse restaurar a confiança nos cidadãos nas democracias liberais e conseguisse promover a restauração económica.

Concentrada naquilo que verdadeiramente interessa. Só uma sociedade da abastança se permite dar ao luxo de gerar movimentos nos seus discursos e prática priorizam os animais, em detrimento da vida, das pessoas e das suas carências. Somente uma sociedade da abastança – e que se sentia erradamente imune ao perigo – é que se poderia gerar movimentos que defendiam o fim da vacinação obrigatória. Somente uma sociedade da abastança é que se permite gerar uma intrínseca crise identitária que incentiva ruidosos movimentos minoritários que, cuspindo no prato que lhes dá de comer e parasitando a liberdade que lhes é conferida, procura destruir uma civilização que atingiu patamares de progresso inigualáveis na História e que não tem pejo de atacar símbolos e identidade em troca de um vazio anarquista.

Voltemos ao essencial. Vamo-nos concentrar na recuperação das nossas vidas. Mantendo as nossas identidades culturais. Reforçando a civilização ocidental. Com espírito de serviço e de solidariedade. Procurando contribuir para suprir as muitas dificuldades que que nos afetarão, individual e coletivamente. Passada a anestesia a sociedade e a sua estrutura vai ser posta à prova.

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