TODOS SOMOS CULPADOS E FAZEMOS DE CONTA QUE NÃO

Por Carlos Guimarães,

Médico

Provavelmente não digo nenhuma barbaridade quando afirmo que o ser humano é a única espécie capaz de discernir entre o bom e o mau ou entre o certo e o errado. Esta capacidade única deve envolver consigo uma responsabilidade única. A consciência sobre o malévolo deveria orientar  em direção ao correto, contudo muitas vezes não funciona assim. Pouca gente dúvida que o planeta assiste a uma onda de degradação avassaladora, a consciência sobre este facto deveria orientar as pessoas no sentido de inverter esta tendência, é uma responsabilidade de todos. Uma grande parte de nós vai fazendo acontecer muito pouco, fazemos pouco do que depende de nós e apesar de sabemos que a grande fatia cabe aos decisores políticos, em democracia, essa decisão é sobretudo nossa.

Nenhuma outra espécie é capaz de diferenciar com clareza o correto do incorreto, contudo todas fazem o que tem de ser feito de forma certa. Nenhuma ave, mamífero ou réptil age de forma incorreta no seu ambiente natural e todos contribuem para um planeta equilibrado, só as espécies criadas maciçamente pelo homem contribuem para o colapso do planeta.  Milhões de vacas, porcos ou galinhas que se reproduzem e engordam nas vastas explorações agro pecuárias não são culpados pelos danos que provocam. O ser-se humano por si só implica ser-se culpado. Essa culpa existe desde sempre, desde a pré-história que o homem vai extinguindo várias espécies, mas nada se compara à desflorestação intensiva e à vastidão poluente do Homo Sapiens atual . Todos nos sentimos culpados quando assumimos uma culpa direta e penitenciamo-nos pedindo desculpa, contudo ninguém pede desculpa pelas culpas que nos assentam todos os dias em múltiplos e variados pequenos atos. Uma simples ida ao café ou ao supermercado deveria fazer-nos culpados quando acedemos a ignição do nosso automóvel para uma deslocação de 500 metros em que  a carga de retorno é simplesmente nada ou apenas meia dúzia de pães, um pacote de leite ou um chocolate. Deveríamos sentir culpa e não sentimos. Deveríamos sentir culpa quando trocamos  a roupa diariamente sem que esta esteja suja ou com cheiros impróprios. Sempre que compramos um livro na Fnac, o mesmo é gentilmente enfiado num saquinho de plástico que em seguida deitamos ao lixo, se não recusarmos o dito saco, iremos carregar mais uma culpa connosco. Estes atos simples e inocentes carregam uma culpa que nunca aflora à nossa consciência e mostra que na verdade somos mais egoístas do que aquilo que julgamos. Uma culpa que é de todos, não é de ninguém, todas as culpas sem pena caem em saco roto! Continuamos a ser nós e cada vez mais nós, incapazes de discernir entre o certo e o errado quando essa capacidade única nos foi oferecida pela natureza. Somos mais reféns dos nossos prazeres do que da nossa consciência coletiva. Diz-se que vivemos um momento único na história da humanidade e que esta é a derradeira oportunidade de marcar a diferença, mas todos os momentos da história do homem são únicos e são a oportunidade de marcar a diferença.

2019 começa já amanhã e provavelmente a mudança que iremos operar nas nossas vidas será NENHUMA. Provavelmente daqui a 10 anos poderia escrever este artigo com a mesma atualidade do dia de hoje.

Apesar de tudo, vale a pena pensar nisto.

Bom Ano

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