Trabalhadores da Kyaia acusam Fortunato Frederico de mentir

Em causa estão afirmações do empresário do calçado, reproduzidas no semanário Expresso, numa peça com o título “O que importa neste momento é sobreviver”, integrada num projeto da SIC Notícias, do próprio Expresso e do Novo Banco.

Fortunato Frederico é ali apresentado como representante do estado de espírito predominante no setor industrial. “Temos graves problemas à porta”, é o desabafo do empresário do calçado que dá o mote para a peça. Para os funcionários da Kyaia, o problema começa quando, na peça, Fortunato Frederico é citado a dizer que a fábrica “nunca parou”.

Um grupo de funcionários assegurou ao Mais Guimarães que a unidade de Penselo esteve totalmente encerrada durante três semanas. A discrepância entre a versão dos trabalhadores e o que é relatado no Expresso continua, quando o empresário afirma que foi acordado com os funcionários uma política de antecipação de férias. Os trabalhadores afirmam que as férias na empresa são marcadas unilateralmente, desde sempre. “Nunca, nem mesmo antes da pandemia, nós tínhamos a possibilidade de marcar férias”, afirma uma funcionária que trabalha na empresa há mais de 20 anos.




Os trabalhadores exibem um documento que, segundo eles, foi afixado nas paredes da empresa a anunciar a alteração do primeiro plano de férias. “Por motivos imperiosos e não previsíveis, e para que as datas de entrega das encomendas sejam cumpridas de modo a não termos cancelamentos e indemnizações por atraso nas entregas, situação esta derivada dos condicionalismos impostos pela pandemia de covid-19, somos obrigados a alterar o plano de férias”, pode ler-se no documento. O documento invoca os termos do artigo 238, nº1 do Código do Trabalho. “A negociação foi esta… uma imposição”, ironiza um dos funcionários. “Quem quiser trabalhar trabalha, quem não quiser a porta da rua está aberta”, foi com estas palavras que a gerente Emília Fernandes comunicou o novo plano de férias, acusam os trabalhadores.

Aida Sá, do Sindicato do Calçado Minho e Trás-os-Montes, explica que a prática da Kyaia está de acordo com o contrato coletivo de trabalho, uma vez que garante um mínimo de 11 dias de férias entre os meses de maio e outubro. Esta coordenadora sindical não fica surpreendida pela falta de negociação na Kyaia, “uma vez que essa é a prática da empresa desde sempre”.




Além da paragem total da empresa, os trabalhadores afirmam que foram sendo colocados em layoff sectorialmente e antes desta medida foram mandados para casa de forma a acumularem horas que agora têm que repor. “Não contestamos que a empresa atravessa dificuldades numa altura destas, mas o senhor Fortunato não pode ir para a imprensa gabar-se de negociar com os trabalhadores quando todas estas medidas são impostas”, diz outro funcionário que trabalha na empresa há 13 anos.

Os trabalhadores da Kyaia mantêm com a administração um diferendo em virtude da imposição de um horário de trabalho com duas pausas de 10 minutos, além da pausa de almoço. Estes intervalos de 10 minutos teriam, segundo a administração, que ser compensados por um acréscimo de 20 minutos no final do turno. Os trabalhadores que não aceitaram esta imposição e não gozaram o intervalo, chegaram a sofrer descontos no salário. Em salários de 635 euros por mês, este desconto representava cerca de 20 euros no final do mês. Apesar de os trabalhadores se afirmarem dispostos a aceitar um acordo a meio termo, Fortunato Frederico mostrou-se intransigente e a questão segue agora nos tribunais.

A Kyaia é o maior grupo português de calçado com fábricas, em Guimarães e Paredes de Coura, soma vendas de 65 milhões de euros, exportando 95% do total, e emprega mais de 600 pessoas. Fortunato Frederico fundou a empresa, em 1984, foi líder da APICCAPS (associação do setor) e, nessa qualidade, responsável pela negociação do contrato coletivo de trabalho em vigor. • Rui Dias

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