“Um crime que é absolutamente do foro privado, ficou ainda mais enclausurado”

Estudos dizem que, quando há crises, quando as pessoas estão confinadas, quando há epidemias, ou situações mais complicadas, a violência doméstica aumenta. As evidências apontam para que uma em cada três mulheres sofrem de violência doméstica por um parceiro íntimo. Mas também homens, crianças e idosos, sofrem de violência.

Em maio de 2020, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) acreditava que os números da violência doméstica iam aumentar em Portugal, tal como aconteceu noutros países. Mas, a verdade, é que durante o período de confinamento, os números não aumentaram. O presidente da instituição acreditava que se vivia uma “tranquilidade aparente” e que os números iam aumentar.

Os números de queixas por violência doméstica registadas pelas forças policiais diminuíram cerca de 33% em Portugal, quando noutros países os aumentos variaram entre 20% a 30% de participações.

Em maio, nas linhas de apoio para a violência doméstica foram recebidos desde 27 de março 417 pedidos de apoio. Entre 30 de março e 26 de abril as estruturas de apoio às vítimas de violência doméstica receberam 4.869 pedidos de ajuda, 162 dos quais pre- senciais.

Uma “pandemia escondida”

Para Emanuela Lopes, Psicóloga Clínica e da Saúde no Hospital de Guimarães, este é um problema que “já não é de agora”, e que, se calhar, a pandemia veio trazer ao de cima “problemas relacionados com violência doméstica”, que é designada por muitos como uma “pandemia escondida”. “Logo no início, algumas pessoas já falavam que tinham que ter alguns cuidados com a forma como iam abordar o parceiro. Logo no início já ouvíamos relatos já a prever que isto não iria correr muito bem”, confessa.

Marta Silva é chefe do Núcleo Violência Doméstica e Violência de Género da CIG e considera este um problema que se terá “intensificado” em “número, complexidade e intensidade”, embora os números de denúncias tenham decrescido muito acentuadamente. “Estamos em crer que não foi porque não houve ocorrências, mas porque as pessoas estiveram limitadas na tomada de decisão de fazer queixas”, não só “por estarem em confinamento”, mas também por diferentes variáveis como a perda de emprego ou de rendimento, considera. “Agora vamos ter meses muito desafiantes”, antevê.




Este período aumentou os níveis de stress em qualquer família, “seja ela funcional ou disfuncional”. Com a pandemia, para Marta Silva, houve uma “menor visibilidade de um crime que ocorreu ainda mais dentro de quatro paredes, porque as pessoas nem sequer saíram para trabalhar, nem sequer puderam pedir a ajuda a título informal que muitas vezes acontece nestes casos, aos vizinhos, aos colegas de trabalho, a uma amiga ou amigo”.

“Um crime que é absolutamente do foro privado, ficou ainda mais enclausurado”. Atualmente, “com a abertura progressiva dos canais de apoio, o que temos verificado é um aumento de procura de apoio nas estruturas de atendimento. Até ao final do ano vamos assistir a um aumento de procura de ajuda e de comunicações às polícias”.

Agressores encontraram “palco mais que ideal”

Os estudos dizem que apenas um terço ou um quinto das pessoas que são vitimizadas denunciam às autoridades. “As vítimas desenvolvem estratégias de sobrevivência e o que lhes foi exigido nesta pandemia é que subissem um nível das estratégias. Estas mulheres, maioritariamente, mas também homens e crianças, que é outra dimensão, terão certamente desenvolvido estratégias de sobrevivência nesta fase em que estiveram confinadas”, explicou ao Mais Guimarães Marta Silva.

Pela primeira vez, o agressor não tem que se preocupar com as questões de controlo, porque “a pessoa ficou em casa, está sempre sob a sua vista, os contactos telefónicos passaram a ser todos na sua presença, portanto os mecanismos de poder e controlo que estes agressores e agressoras tinham, encontraram o palco mais que ideal para o exercício sem grande trabalho”.

A chefe do Núcleo Violência Doméstica e Violência de Género da CIG explicou que foram maioritariamente mulheres que apareceram e foram casos em que não havia histórico de violência pré-Covid.

O departamento europeu da Organização Mundial da Saúde (OMS) manifestou uma profunda preocupação sobre o tema, explicando que aumentou cerca de 60% o número de casos de violência doméstica na Europa, comparativamente ao período homólogo do ano passado. Aumentaram os casos da violência interpessoal, sobretudo entre parceiros íntimos, e sobretudo contra crianças, o que também é muito chocante. Também na Europa, as denúncias online, diz a OMS, aumentaram cerca de cinco vezes mais no mês de abril, por comparação com o ano passado.

Contactos:

Linha de emergência | 112
Linha SOS Criança | 116 111
Linha de Apoio à Vítima | 116 006
Linha da Segurança Social | 300 502 502
Linha Nacional de Emergência Social | 144
Serviço de informação a vítimas de violência doméstica | 800 202 148

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