“Um cristão está veiculado ao bem comum, tem de trabalhar com esse objetivo”

Orlando Coutinho terminou recentemente a sua tese de mestrado em filosofia política, na Universidade do Minho. “Democracia Cristã – uma hermenêutica contemporânea”, é um texto que procura uma interpretação ao centro desta corrente política que foi fundadora do estado de bem estar europeu mas que, em Portugal, representada pelo CDS, parece ter resvalado irremediavelmente para a direita. Reconhece no Papa um verdadeiro cristão que trouxe para a ordem do dia a preocupação de atender aos mais desfavorecidos. 

Lê-se no seu texto que a globalização começou com a queda do Muro, em 1989. Pode dizer-se que esse fenómeno terminou com esta era Trump?

É difícil dizer isso dessa forma. Houve um conjunto de episódios no mundo, quando ele era bipolar, que acabaram por eclodir naquilo que foi a globalização. O modelo proposto pelo Ocidente, por contraposição à economia planificada proposta pela União Soviética, impôs-se num mundo sem fronteiras, até que ele se recompusesse. Mas a implementação de ideias liberais era anterior. Margaret Tatcher é, por vezes, vista como uma conservadora, mas as principais medidas liberais, no Reino Unido, foram lançadas por ela, nomeadamente com a privatização de bens públicos. Após 1989, o mundo ficou mais uniforme na sua formulação, mas isso não acabou com as diferenças sociais. A globalização trouxe as ideias do liberalismo puro e isso tem um problema: quem começa mais atrás nunca é capaz de entrar no elevador social. É por isso que eu sou um democrata-cristão.




A democracia cristã é o contraponto a esse liberalismo selvagem?

O ordoliberalismo evita que o elevador fique sempre encravado para quem parte de trás.

E o Trump?

É uma reação à reconfiguração do mundo, depois de termos assistido à expansão económica dos chamados BRIC. Sobretudo a China trouxe consigo, não só a economia, mas também um conjunto de ideias políticas que começaram a colocar em causa a hegemonia americana. O Trump é uma reação do povo americano, uma tentativa de não perderem a liderança. Que para mim já está, de forma evidente, entregue à China.

A política americana mudará muito se Trump perder as eleições?

Eu não sou um fã do Trump, contudo, temos de reconhecer que foi, em termos de política internacional, o mais pacifista dos presidentes americanos. O único que não colocou tropas no terreno. A crise dos migrantes na Europa tem um responsável, Barak Obama, que semeou discórdia no Médio Oriente e no Norte de África.




“Vivemos um tempo de polarização das ideias.”

Orlando Coutinho

Durante gerações, europeus e americanos tiveram a esperança de ser sucessivamente mais prósperos que os pais. Hoje, isso é uma miragem, as novas gerações serão mais pobres que os seus proge- nitores. Na China e na Índia, acontece o contrário, pela primeira vez há uma geração que saiu da pobreza e começa a haver uma classe média. A democracia-cristã tem respostas para esta geração?

Do meu ponto de vista sim. É interpretação que faço das ideias que o Papa Francisco tem vindo a transmitir à sociedade. O Papa afirma que “esta economia mata”. De facto, mata, se nós não tivermos a capacidade de promover a educação, a regulação dos mercados, políticas laborais equilibradas e justas, aquilo que vamos ter é o elevador social fechado. Adam Smith era um otimista, a “mão invisível nunca funcionou, ou quando funcionou foi para empurrar os desfavorecidos para fora do sistema”. O Papa traz para a ordem do dia aquilo que parece só ser aplicado na Alemanha, o ordoliberalismo: Estado com contas certas, Estado social, economia a funcionar livremente, com regulação forte por parte do Estado.

Desse ponto de vista, porque é que a democracia-cristã não colhe mais simpatias entre os eleitores?

Vivemos um tempo de polarização das ideias. Os partidos socialistas, que antes estavam ao centro, começam a aceitar as ideias socialistas puras, na direita, conservadores e liberais também caminham para extremos. A democracia-cristã ficou aqui um pouco cristalizada, só vive na Alemanha. Nalguns casos a democracia-cristã caiu em descrédito por culpa própria, como aconteceu em Itália. Isso abriu espaço para os libertários ocuparem o espaço do centro direita.

Quando se pensa em democracia-cristã nunca se pensa numa coisa que evoca: a educação universal. Isso é algo que normalmente faz parte do património da esquerda. Há um erro de perceção do eleitorado relativamente ao que é a democracia-cristã?

A democracia-cristã defende que a educação deve ser universal, mas deve haver espaço para uma oferta pública, privada e até concordatária. Os democratas-cristãos defendem que a educação deve ser universal, o modelo de aplicação é discutível. Muitas das propostas que têm vindo de partidos democratas-cristãos tem sido o cheque ensino, para que as famílias possam escolher. Aqui em Portugal temos uma marca socialista pura, quando o Governo acabou com contratos de associação com escolas que prestavam serviço público.

Devemos ou não ter uma disciplina de educação cívica?

Eu acho que sim. Podemos discutir os valores que são passados nessa disciplina, agora fechar a porta, como alguma democracia-cristã mais conservadora tem feito, isso não! Os valores da Constituição são relativamente consensuais.

“Eu andei por aí [entre 30 de outubro e 2 de novembro] com a constituição, se me mandassem parar era a única declaração que tinha para apresentar.”

Orlando Coutinho

Embora o CDS tenha sido o partido que sempre se interpôs a esta Constituição?

Pelas referências ao socialismo. Mas agora devia fazer um ato de contrição, porque foi esta Constituição que nos defendeu contra estas medidas socialistas de limitação de liberdade de circulação no território. Eu andei por aí [entre 30 de outubro e 2 de novembro] com a Constituição, se me mandassem parar era a única declara- ção que tinha para apresentar.

A disciplina de Educação Cívica não é uma forma de substituir a doutrina cristã que saiu da esfera da escola porque o Estado é laico, por outra doutrina?

Acho, se não formos capazes de consensualizar. Mas não deve haver medo, tem de ser possível fazer consensos. Uma disciplina deste tipo deve assentar no legado constitucional. Eu percebo o medo, porque há movimentos radicais com uma agenda desconstrutiva, mas tem de ser possível ir ao meio da ponte e dar a mão ao outro.




A família como ela é retratada no Novo Testamento é importante para os democratas-cristãos. Alguns setores mais progressistas têm sobre a família ideias diferentes. O que é que a democracia-cristã tem para dizer a estas forças que, naturalmente, quererão influenciar uma disciplina de Educação Cívica?

A família de tipo tradicional, a participar socialmente para o bem comum, é o modelo que a democracia-cristã defende. Aquilo que depreendi do que disse o Papa Francisco e que escrevi em julho na minha tese confirmou-se, agora em outubro, com as declarações do Papa. Há espaço para o acolhimento de todos os modelos sociais. Isso não invalida que devemos defender o modelo em que acreditamos.

O cristão, numa sociedade democrática, quando não vai votar está a lavar as mãos como Pôncio Pilatos?

Está, está a lavar as mãos. Está já antes a lavar as mãos se não participar, nos partidos, ou nos sindicatos, nos movimentos cívicos, ou nas associações. Um cristão está veiculado ao bem comum, tem de trabalhar com esse objetivo.

“O Papa Francisco trouxe para a ordem do dia as preocupações de sempre dos democratas-cristãos: atender aos mais desfavorecidos.”

Orlando Coutinho

Qual é o papel reservado para o Estado Nação, quando o Papa fala da grande família Humana?

É a diferença entre o universalismo e o internacionalismo. Interpreto as palavras do Papa Francisco, nesse particular, de uma forma mais confessional. Quando ele diz que “devemos acolher todos independentemente das suas diferenças”, isso não quer dizer que o Papa rompeu com o internacionalismo da doutrina da Igreja Católica. O Estado Nação é até um instrumento fundamental para proteger culturas minoritárias, atente-se no que o Papa escreveu sobre o Sínodo da Amazónia, isso está lá bem presente.




Este Papa rompeu com aquilo que era a doutrina da Igreja?

Este Papa descolou dos mais conservadores, fundamentalmente, num tema: a pena de morte. A inadmissibilidade da pena de morte é única grande alteração que o Papa fez à doutrina da Igreja Católica. Tudo o resto é ir ao fundo, à raiz do cristianismo. Temos aqui um Papa verdadeiramente cristão. O Papa Francisco trouxe para a ordem do dia as preocupações de sempre dos democratas-cristãos: atender aos mais desfavorecidos.

É por isso que situa a democracia-cristã ao centro?

Adelino Amaro da Costa disse que “o centro é o local ideal para fazer acontecer as melhores políticas”. Foi ao centro que o CDS nasceu com Freitas do Amaral. É por isso que, numa das últimas entrevistas que deu, Freitas do Amaral afirmou que estava mais ao centro que nunca, porque havia uma grande radicalização à direita. Há várias interpretações da democracia-cristã, umas mais à direita outras mais à esquerda. Concretamente, o CDS ganhava se conseguisse afirmar que pode estar entre a direita e o centro.

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