UM PARADOXO NA POLÍTICA

Por Tiago Laranjeiro

Nos últimos tempos temos assistido a uma sucessão de casos que poderiam ser considerados de nepotismo no topo do Governo da República. Os seus indefetíveis justificam as escolhas como de “mérito pessoal”, alegando ainda que ninguém pode ser prejudicado pelas suas relações pessoais e familiares. Enquanto recordo a máxima “à mulher de César não basta ser séria, tem de parecer séria”, junto-me à enorme massa dos meus concidadãos que olha para este problema com uma enorme indignação mansamente conformada, mesmo lembrando-me de alguns ensinamentos que me ficaram da História ideologizada que aprendi na escola – que fenómenos semelhantes no passado levaram à queda de regimes. Sigamos em frente, que não é esse o meu ponto hoje, e o passado é um lugar estranho em que (reza a lenda) as pessoas se incomodavam com o estado do país e da política.

O meu ponto é sobre uma reflexão que me suscitou a cândida defesa pública que Pedro Nuno Santos fez dos predicados da sua esposa para exercer a alta função para que foi nomeada. Nela, discorria sobre as exigências da vida política desde tenra idade, e das opções que tomou, confessando que o seu círculo de relações pessoais (e mais tarde familiares) se foi fechando em torno das pessoas que com ele partilhavam a atividade política e partidária. Sinceramente, compreendo o seu ponto de vista. E o cidadão comum não está consciente da exigência que ele próprio põe nos “políticos” (entendido aqui como o sistema dos representantes e dos organismos que sustentam e enquadram a atividade) desde um nível muito baixo.

Dos políticos, espera-se que tenham ideias, que essas ideias sejam bem sustentadas, que conheçam as ideias dos outros, que participem numa miríade de reuniões e eventos públicos e sociais, que estudem os dossiers temáticos, antecipando e respondendo aos problemas da sociedade, e tenham um diálogo profundo, profícuo e permanente com as forças vivas da sociedade civil. Ora, isto exige, desde logo, tempo. E exige-se a um presidente de Junta, a um presidente de concelhia de um partido, até ao de uma juventude partidária, e muito mais a um candidato à Câmara. Aliás, na prática, até na política local, um partido que tenha aspirações ao exercício de poder precisa de ter um número significativo de quadros com uma enorme disponibilidade de tempo para ser eficaz.

Paradoxalmente, os mesmos cidadãos que querem resultados profissionais dos políticos, exigem que esses políticos tenham uma atividade profissional bem-sucedida fora da esfera política. Algo que é muito difícil de acontecer no mercado de trabalho atual, em particular no setor privado.

A candura de Pedro Nuno Santos pôs-me a refletir sobre este paradoxo. Que, no exercício do poder, resulta depois na escolha dos próximos do aparelho político para cargos executivos no Estado, podendo chegar ao cúmulo do nepotismo atual. E que explica também o lamento dos cidadãos quanto ao afastamento dos “melhores” (os tais com sucesso profissional independente) da política. Pudera – não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.

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