Um tempo que nos traz tempo

Por Adelina Paula Pinto,
Vice-presidente e vereadora da Câmara Municipal de Guimarães

É muito difícil, no atual contexto falar sobre este novo tempo, sobre esta reviravolta que a nossa vida deu no último mês! Eu, que tenho formação na área da História, diria que ainda não temos a necessária distância! Mas será que não temos?

Este novo tempo é de tal maneira exigente que parece que fez desaparecer o outro tempo. É demasiado voraz, suga-nos completamente, coloca-nos num túnel onde ansiamos por ver a luz ao fundo! Quem se lembra da última vez que foi a um espetáculo, que foi jantar com amigos, que foi ao cabeleireiro? Parece que foi há TANTO tempo!

Este é um tempo de grandes mudanças, de assumirmos os nossos medos e as nossas inseguranças, no conforto da universalidade destes sentimentos. Um tempo de questionamento do futuro, das nossas rotinas, das nossas certezas, dos nossos projetos, do caminho que estava tão bem delineado para tantos de nós!

Mas é também um tempo de aprendizagem (há um mês atrás eu não sabia o que era uma zaragatoa e hoje sei tanto sobre zaragatoas), um tempo de grande curiosidade, um tempo de pesquisa, um tempo que nos dá mais tempo para fazermos outras coisas. Um tempo de valorização da ciência, um tempo de grande desenvolvimento de muitas áreas científicas.

Um tempo para a família (hoje excessivo), um tempo para os casais, um tempo para a saudade, a saudade dos nossos pais e avós, daqueles que nós vemos pela janela da rua, que lhe acenamos, com lágrimas nos olhos de parte a parte!

Um tempo de verdadeiro amor, um amor altruísta, aquele que nos faz ficar em casa para não contaminarmos os outros, que nos faz sofrer silenciosamente a saudade do tempo da família e do tempo dos amigos! Um tempo de gestão dum turbilhão de emoções!

Um tempo de bom senso, bom senso naquilo que exigimos dos outros, dos nossos filhos confinados em casa, das aprendizagens dos nossos alunos. Neste tempo tão diferente como podemos exigir das nossas crianças e jovens e das nossas famílias que transformem cada casa numa escola? Este é um tempo de aprendizagem de tantas outras coisas, da solidariedade, da amizade, da cidadania, do luto, da tristeza! Um tempo para se fazerem homens e mulheres bem diferentes, preparados para este novo tempo!

Mas é também um tempo de reconhecimento, reconhecimento do enorme papel dos profissionais de saúde, dos professores (as famílias confinadas em casa dão hoje um outro valor aos professores), de todos aqueles que fazem com que a nossa vida tenha alguma normalidade: as forças de segurança, os funcionários que trabalham em lares e outras instituições, todos os funcionários que fazem com que a concelho continue com as condições de salubridade! E tantos outros heróis silenciosos, audazes, que arriscam a vida por todos nós!

Este é um tempo que vai fazer de nós melhores pessoas, mais cuidadosas, mais centradas nos outros. Vai ser um tempo que nos vai continuar a mostrar que o distanciamento social nos liga mais, nos torna mais próximos dos outros.

E vai voltar a chegar o tempo em que nos vamos abraçar, em que vamos ao teatro ou ao cinema, vamos jantar com os amigos ou beber uma cerveja na Oliveira ou noutra praça qualquer! E vai ser um tempo de felicidade e de valorização do tanto que temos. Hoje, amanhã e nas próximas semanas fiquemos em casa, para que este velho tempo chegue depressa!

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