Uma nova alvorada, um novo dia, uma nova vida…

Por Isabel Estrada Carvalhais,
Eurodeputada

O título desta crónica inspira-se no refrão da belíssima canção ‘Feeling Good’, atribuída aos ingleses Anthony Newley e Leslie Bricusse, e que Nina Simone imortalizou ao trazê-la para o seu album “I put a spell on you” de 1965, em plena luta pelos direitos cívicos dos afro-americanos.

Escolhi este título porque por estes dias, é inevitável o sentimento de alívio e de esperança que a vitória de Joe Biden parece trazer, não a penas a milhões de americanos, mas também ao mundo democrático, farto de quatro anos de um longo reality show em que Trump desempenhou, do princípio ao fim, o único papel que verdadeiramente sempre lhe assentou como uma luva: o de entertainer. E para quem gosta dessa faceta, não desiludiu nem desiludirá, como já se percebeu pelas suas reações à vitória de Joe Biden e pela sua promessa de uma longa novela de batalhas legais. Uma vez artista, para sempre artista.

Já Joe Biden, com mais de 50 anos de vida política, poderia parecer estar talhado para não ser mais do que um arquétipo da mainstream politics, filho das grandes famílias políticas tradicionais norte americanas, e por conseguinte, parte daqueles que milhões de concidadãos olham como responsáveis pela continuidade de uma política elitista, distante das franjas, dos pobres, dos desempregados, das minorias em geral. Mas até para milhões desses concidadãos, Joe Biden representa hoje a esperança. A esperança do retorno de algum sentido de decência, de compreensão do funcionamento da política norte americana, de respeito pelas instituições sobre a quais se alicerça a própria força e longevidade do regime democrático presidencialista tal como imaginado pelos pais fundadores. A esperança de retorno à possibilidade de uma práxis política de conciliação, de união, e não de instigação descarada ao ódio e à polarização da sociedade.

A América que Joe Biden encontra, é uma América profundamente dividida. De um lado: a terra das oportunidades, da tolerância religiosa, dos avanços científicos e tecnológicos, das grandes cidades multiculturais onde se cruzam comunidades de todo o mundo. Do outro: a terra de meios rurais distantes, de subúrbios industriais dilacerados pelo desemprego, pelas sucessivas crises económicas dos últimos anos; a terra de milhões de cidadãos com muito pouca instrução; a terra de fundamentalismos religiosos, da negação militante da Ciência – muito graças a um sistema de ensino em que é possível escolas públicas optarem simplesmente por não ensinar ciência, não explicar as teorias científicas sobre a criação e a evolução da Terra – realidade que por certo ajuda a explicar porque os EUA estão entre os países com maior iliteracia matemática, porque 1 em cada 5 americanos acredita que o sol gira em torno da Terra, ou porque 2/3 não consegue identificar pelo menos um dos três poderes do sistema governativo (poder legislativo, executivo e judicial).

A América multiracial e multicultural sempre coexistiu com uma América que alberga na construção da sua identidade uma profunda tensão racial, uma tensão que Obama pareceu atenuar, mas que na verdade apenas aumentou em silêncio, até ao dia em que Trump emergiu para lhe dar mais voz, legitimando o ódio, sancionando os grupos extremistas, criando narrativas alternativas em que quem empunha armas são pessoas de bem, e quem protesta contra o ódio é descrito como arruaceiro e pária. Com Trump inaugurou-se o tempo da pós-verdade, em que toda a crítica, toda a possível dissidência nem chega a ser reconhecida enquanto tal, porque é simplesmente reduzida à condição de ‘fake’. Eis um dos grandes legados da era trumpista (que não acabou, note-se): a subversão da própria ideia de confronto, pela simples negação da existência de ‘algo’ que possibilitaria o confronto, uma vez que tudo o que não agrada é reduzido à condição de ‘fake’, não no sentido de matéria falsa (logo que se poderia contestar), mas apenas de inexistente.

E resultou. Foram 4 anos a vociferar contra o diálogo intercultural, a dar palmadinhas nas costas de racistas confessos, a apelar às armas e ao fogo contra afro-americanos, contra imigrantes, contra muçulmanos, contra hispânicos…

O crime compensou e hoje a América que Biden encontra é uma América profundamente ferida. Biden tem consciência do campo de batalha que encontra e por isso, sem surpresa, as palavras do seu primeiro discurso à nação, são palavras de união, de apelo à reconciliação, ao diálogo, ao trabalho conjunto. Biden poderá ser o herói improvável, mas é o único que neste momento a América tem para ser de novo e verdadeiramente grande. Grande, não no sentido misógino, racista, xenófobo, nacionalista, mas no sentido humanista, inclusivo, progressista e democrático da América que aprendemos a respeitar como a Terra de todas as oportunidades.

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